Uma breve introdução sobre a moral cristã

Posted by Matheus Negri in VIDA CRISTÃ

moral cristã

 

Por Matheus Negri

Muitas críticas foram e ainda são levantadas contra o cristianismo. Elas estão em filmes, novelas, jornais, salas de aula e em no senso popular. Destas críticas muitas são direcionadas a denominações específicas e outras abertas a todos os cristãos. Muitas são ácidas, na história do pensamento moderno e contemporâneo.

Na cultura popular podemos assistir desenhos animados como “Os Simpsons” ou “South Park”, onde vizinhos cristãos são motivos de riso e piadas. Temos também novelas e programas de entrevistas que colocam as posições cristãs como ultrapassadas, sem valor e deixando a entender que elas trazem de alguma maneira atraso para a sociedade: como os debates sobre a definição de família no estado brasileiro e a questão da homossexualidade na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal. Um bom exemplo é a matéria do dia 06.07.2013 no site da revista Veja intitulada, EVANGÉLICOS: Veja como ocorre a suposta ”CURA GAY” em templos de São Paulo. Nesta reportagem é demonstrada a forma como algumas igrejas evangélicas neopentecostais no contexto de São Pulo lidam com a questão da homoafetividade.

Outro ponto pertinente é apresentado por Dan Kimball[1] em seu livro, Eles Amam a Jesus e Odeiam a Igreja, o qual fez uma pesquisa em universidades americanas e percebeu o grande descontentamento com a igreja cristã em seu país. Todos os pontos levantados por ele estão intimamente ligados com a moral cristã. Observa se o descontentamento nos seguintes pontos:

1. A organização da igreja como uma organização política com interesses próprios.

2. A igreja é intolerante e negativista.

3. A igreja oprime as mulheres e é machista.

4. A igreja é homofóbica.

5. A igreja é arrogante ao afirmar que só ela tem a salvação.

6. A igreja é fundamentalista e leva a Bíblia ao pé da letra.

O desenvolvimento da moral cristã

É impossível falar de uma moral cristã sem antes compreender os seus fundamentos, visto que a relação do cristianismo se dá baseado na Verdade Revelada, que é a Bíblia, palavra de Deus transmitida aos homens. Estando nela o projeto ético de vida para os seres humanos em todas as épocas. Por moral (mores) entendemos para os fins deste trabalho como o conjunto de regras que formam a conduta[2]. Neste caso sabemos que a moral cristã então deve ser baseada na Revelação e dela retirada as normas para uma conduta moral.

Se queremos compreender a moral cristã precisamos compreender seus pressupostos, isto é a moral hebraica. E encontramos no Antigo Testamento suas principais ideias. Sua principal característica é ser fundamentalmente teocêntrica, isto é, centrada em Deus[3]. Desta forma fica difícil separar moral de culto, a própria conduta do fiel hebreu é parte de sua religião. Desta forma Deus é a fonte da exigência moral e o Sumo Bem. Deus não está neutro diante da ação humana, pelo contrário é Ele que mostra a forma correta do agir humano. Este ponto fica extremamente claro quando lemos que é Deus quem entrega os mandamentos a Moisés em Êxodo 20 e em seus atributos morais. Como exemplo sua santidade “Eu sou o SENHOR que os tirou da terra do Egito para ser o seu Deus; por isso, sejam santos, porque eu sou santo” (Levítico 11.45), e sua justiça “Pois o SENHOR é justo, e ama a justiça; os retos verão sua face” (Salmo 11.7).

Esta é a diferença fundamental entre a moral hebraica e os tipos de filosofias morais como Aristóteles e Kant, que são fundamentadas no agir humano e no dever para com o que é correto. O hebreu possui um dever para com seu Deus de praticar seus mandamentos, de agir moralmente, não possui um dever em si mesmo com a moralidade. O profeta Miquéias equaciona a relação do agir moral com o teocentrismo com as seguintes palavras “Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o SENHOR exige: pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com seu Deus” (Miquéias 6.8). Este princípio é sintetizado pelo provérbio “O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo é o entendimento” (Provérbios 9.10). Então o Deus de Israel é a fonte das exigências morais impostas ao homem e o valor para o homem.

A segunda característica é o seu tom imperativo[4]. Dos tipos de pensamentos éticos podemos diferenciar aqueles que procuram responder a pergunta: “O que é certo?” e “Qual é o principal bem do homem?”. A moral hebraica procura responder a primeira pergunta, ela relembra ao ser humano seus deveres, o que ele deve fazer, como ele deve fazer e o que é o certo a se fazer. Pontos sempre marcados pelo teocentrismo e a relação de pacto entre Deus e o ser humano. Fica evidente que não cabe ao ser humano escolher livremente entre ideais e normas, mas sim acatar a lei e a ordem dadas por Deus. Isto é exemplificado pelo imperativo das leis: “Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra” (Êxodo 20.3,4); “Eu sou o SENHOR que te tirou da terra do Egito para ser o seu Deus; por isso, sejam santos, porque eu sou santo” (Levítico 11.45); “Este é um decreto perpétuo para vocês: A propiciação será feita uma vez por ano, por todos os pecados dos israelitas” (Levítico 16.34); “Ame ao SENHOR, o seu Deus e obedeça sempre os seu preceitos, aos seus decretos, às suas ordenanças e aos seus mandamentos” (Deuteronômio 11.1) .

A terceira característica da moralidade hebraica é sua preocupação com as pessoas e comunidades de pessoas, não com ideais e padrões abstratos[5]. A ênfase da moral hebraica está na relação com o próximo e sua comunidade, não se pensa a justiça como um ideal abstrato a ser alcançado, mas em justiça prática e concreta para com toda a comunidade. Não encontramos debates sobre o que é a verdade, mas sim que devemos ser verdadeiros. Ao ler os dez mandamentos, Êxodo 20.1-17, podemos ver claramente a sua preocupação com a conduta de cada pessoa, seja para com Deus ou seu próximo. No mandamento “Não darás falso testemunho contra o teu próximo” (Êxodo 20.16) não está sendo discutido o que é a verdade, ou se falar a verdade pela verdade, o que temos é o dever dado por Deus de falar a verdade no relacionamento entre as pessoas. Os profetas seguem a mesma linha nunca discutindo termos ideais e abstratos de justiça e misericórdia, mas sempre chamando o povo para a prática de justiça e misericórdia. Como exemplo temos a síntese do profeta Miqueias: “Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o SENHOR exige: pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com seu Deus” (Miquéias 6.8). Aparece, também, em outros profetas como o Isaías que exemplifica ainda mais a justiça incluindo o cuidado com as minorias discriminadas no contexto do povo de Israel: “Lavem-se! Limpem-se! Removam suas más obras para longe de minha vista! Parem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem! Busquem a justiça, acabem com a opressão. Lutem pelo órfão, defendam a causa da viúva” (Isaías 1.16,17). Já o profeta Oséias coloca em paralelo a prática da misericórdia e o conhecimento de Deus, deixando muito evidente a unidade entre culto e prática na moral hebraica: “Pois desejo misericórdia, e não sacrifícios; conhecimento de Deus e não holocaustos” (Oséias 6.6).

A quarta característica é o seu igualitarismo do valor humano[6]. Partindo do ponto em que Deus criou todas as coisas, inclusive o ser humano, e que Deus prove e sustenta toda a sua criação o hebreu não focava seus olhos nas diferenças entres os homens, mas na semelhança, na igualdade fundamental: criados a imagem e semelhança de Deus (Cf. Gênesis 1.27). Desta forma todos merecem o cuidado, seja viúva, órfã, estrangeiro, escravos e pobres, pois é desta forma que Deus se relaciona com sua criação e sua criação deve se relacionar entre si. Exemplificando temos as leis acerca do escravo que lhe dava liberdade no sexto ano de trabalho “Se comprar um escravo hebreu, ele o servirá por seis anos. Mas no sétimo ano será liberto, sem precisar pagar nada” (Êxodo 21.2); para o cuidado com o pobre e o estrangeiro, “Não passem duas vezes pela vinha, nem apanhe as uvas que tiverem caído. Deixem-nas para o necessitado e para o estrangeiro. Eu sou o SENHOR, o Deus de vocês” (Levítico 19.10); entre os atributos para ser um justo estava, também, a de ajudar os pobres “Os justos levam em conta os direitos dos pobres, mas os ímpios nem se importam com isso” (Provérbio 29.7); no profeta Ezequiel encontramos que Deus não se agrada com a morte do ímpio, deixando evidente o valor da vida de um ser humano “Juro pela minha vida, palavra do Soberano, o SENHOR, que não tenho prazer na morte dos ímpios, antes tenho prazer em que eles se desviem de seus maus caminhos!” (Ezequiel 33.11).

A quinta característica é a sua ênfase na salvação do mal e não na aspiração do bem[7]. Como podemos ver até aqui toda a moral hebraica está fundamentada em Deus e não no homem, e é de Deus que eles esperam a salvação, não de alguma atitude humana. No Êxodo é Deus que salva seu povo da escravidão egípcia (Cf. Êxodo 3.16,17); foi Deus que guiou seu povo pela peregrinação no deserto (Cf. Números 9.15-23); o profeta Isaías apresenta o perdão de Deus para seu povo (Cf. Isaías 1.18); O profeta Jonas sintetiza este conceito nesta frase “A salvação vem do SENHOR” (Jonas 2.9).

Agora compreendendo a moral hebraica verificaremos a fé cristã propriamente dita, visto que ela é uma expansão da moral hebraica. Todos os cinco pontos citados acima estão presentes no Novo Testamento, são mantidos nos ensinos de Jesus e dos apóstolos. A fé cristã é elaborada a partir da vida e dos ensinamentos de Jesus de Nazaré que estão reunidos num conjunto de quatro livros bíblicos chamados de Evangelhos. Jesus Cristo é tido como o filho de Deus encarnado, o Messias prometido e esperado pelo Antigo Testamento, qual libertaria o seu povo da tirania na fundação de um reino de paz e amor. No seu tempo de vida e ministério na terra percorre as ruas da Palestina pregando o evangelho das boas novas, anunciando a chegada do Reino de Deus. Cristo resignifica as antigas leis judaicas, dadas por Deus no monte Sinai para Moisés, não as invalida, mas apresenta que a lei mais importante é o amor. Aqui está a novidade trazida que os homens deveriam amar a todos, inclusive seus inimigos.

No cristianismo a conduta do homem deve ser guiada pela compaixão e misericórdia, da mesma forma que encontramos na moral hebraica. Um bom exemplo é o evangelho de Mateus, nele o evangelista organiza as boas novas de Cristo em cinco ciclos de discurso. No primeiro ciclo encontramos uma sequencia de capítulos conhecido como Sermão da Montanha, Mateus 5-7, no qual podemos observar que existe uma inversão de valores, pois inicia com as, Bem Aventuranças, valorizando os pobres de espírito, os que choram, os humildes, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacificadores, os perseguidos e todos os que sofrerem pelo nome de Cristo. A todos estes é prometido consolo, paz e felicidade no Reino de Deus. Confira o texto:

Vendo as multidões, Jesus subiu ao monte e se assentou. Seus discípulos aproximaram-se dele, e ele começou a ensiná-los, dizendo: “Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus. Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados. Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos. Bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus. Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus. “Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa os insultarem, perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês. Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a recompensa de vocês nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês” (Mateus 5.1-12).

Cristo afirma também que a justiça de seus seguidores deve ser superior a dos fariseus, os líderes judaicos conhecidos por sua rigorosa prática religiosa, e que sua conduta deveria ser de humildade, pois assim seriam exaltados no Reino (Cf. Mateus 5.17-20). Neste capítulo cinco ensina que a ira possui o mesmo peso do homicídio. O adultério é cometido pela intenção do coração e não pela prática do ato. E de forma espantosa o amor deve ser a todos, inclusive aos inimigos, visto que neste momento Israel pertence a Roma e sofre com a invasão e perseguição. Coloca assim que o cristão ao ser agredido deve dar a outra face e não buscar a vingança, pois seu padrão de conduta é a próprio Deus (Cf. Mateus 5.21-47).

Jesus ensina ainda que os dois maiores mandamentos são amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo:

Respondeu Jesus: “‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento’. Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mateus 22.37-40).

Assim por esta nova lei, a do amor, Cristo apresenta um novo projeto de vida para seus seguidores, abrindo um novo campo na moralidade não sendo somente externa, mas interna partindo das intenções do ser humano. Continua estritamente teocêntrica como a moral hebraica, mas agora o centro deixa de estar na prática externa da obediência a Deus por meio da justiça e misericórdia. Passa, então, para as intenções do discípulo.

O projeto de vida dos antigos gregos era baseado na felicidade (eudaimonia) na polis. Dos quais Aristóteles afirma “todo o saber e toda intenção têm um bem por que anseiam […]. Tanto a maioria como os mais sofisticados dizem ser a felicidade, por que supõe que ser feliz é o mesmo que viver bem e passar bem”[8], felicidade está posta como um esforço político por parte do homem em suas ações[9]. Já o seguidor de Cristo tem sua felicidade em uma vida futura. Esta sua nova vida começa agora e é fundamentalmente marcada pelo amor e compaixão. Ele espera ansioso, em meio aos sofrimentos, a volta de seu Senhor e a manifestação pela de seu Reino eterno (Cf. Romanos 8.18-25).

Cristo levou seus ensinamentos até as últimas consequências. Sofreu uma morte de cruz e assim afirmando que o mais importante é o amor, pois do que explica o apóstolo Paulo em sua carta aos romanos: “Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores” (Romanos 5.8).

Baseado então nos ensinamentos dos evangelhos e dos apóstolos, que se encontram nos outros livros do novo testamento, e a partir de uma nova interpretação do Antigo Testamento, temos que o projeto de vida cristã para o ser humano é composto da seguinte maneira: quanto a sua existência deve ser para a glória de Deus (Cf. 1 Coríntios 10.31); quanto ao seu relacionamento com as outras pessoas, independente com quem e onde esteja, deverá seguir a regra do amor incondicional (Cf. Mateus 22.36-40); sua relação com a natureza e o mundo criado deverá seguir a lei do amor e do respeito, visto que ele é criação de Deus e ele, o ser humano, é posto como um administrador (Cf. Genesis 2.15); e quanto a morte esta é somente uma passagem para a verdadeira vida, a eterna, no qual aquele que seguir o projeto de vida da moral cristã terá a paz e o consolo prometidos, já os que não o fizeram passarão a eternidade em sofrimento (Cf. Apocalipse 21.1-8).

Passamos agora a considerar o legado desta nova moral no mundo em que estava inserido. Um projeto audacioso como este e de sua magnitude de forma nenhuma pode passar despercebido e nem deveria. Jesus afirma no fim do Evangelho de Mateus que suas palavras deveriam ser ensinadas a todos, temos um projeto de vida para toda a terra, e não somente para um seleto grupo de pessoas. Nas palavras do evangelho: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que lhes ordenei” (Mateus 28.19,20).

A moral cristã na cultura Greco-romana

Podemos afirmar sem medo que conduta cristã marca definitivamente a cultura ocidental até os dias de hoje. O próprio polêmico filósofo, Peter Singer[10], reconhece que o advento do cristianismo foi o responsável pelos direitos fundamentais dados em nossa cultura, isso devido ao caráter teocêntrico das leis e a imortalidade da alma. Tornando essas doutrinas como os basilares incontestáveis da ortodoxia moral da civilização ocidental. Rodney Stark em seu livro, O Crescimento do Cristianismo, apresenta as grandes mudanças que houveram no Império Romano devido à propagação dos ideais cristãos. Irei ressaltar três grandes mudanças no agir romano: o problema das epidemias, o papel da mulher e os infanticídios.

Segundo Stark nos séculos II e III houve grandes número epidemias, chamadas “Peste de Galeno”, a taxa de mortalidade destas epidemias foram tão altas que havia caravanas de carroças e vagões para o transporte dos mortos[11]. Das consequências produzidas pelas epidemias a que nos interessa é a da crise de fé, como se sabe sempre as grandes crises naturais, sejam doenças, terremotos, vulcões ou outras, são traduzidas em crises de fé. Esta crise de fé se dá principalmente pela ineficiência da religião dominante em responder e atender o problema. A ineficiência do paganismo romano se dá pela dificuldade dos sacerdotes e filósofos em responder o “por quê?” de tamanha mazela e ainda a fuga em massa dos sacerdotes e das mais altas autoridades civis dos locais onde ocorriam as epidemias[12]. Temos como exemplo o relato de Tucídides, extraído de sua obra História da Guerra de Peloponeso:

“É que a catástrofe era tão devastadora que os homens, por desconhecer o que os esperava, se tornavam indiferentes a qualquer preceito legal ou religioso […]. Nenhum temor a deus ou a lei humana conseguia exercer influência restritiva. Quanto aos deuses, era indiferente adorá-los ou não adorá-los, quando se viam o bom e o mau morrendo indiscriminadamente”[13].

Texto que ilustra de maneira significativa o sentimento que envolvia os pagãos quanto ao que estava acontecendo e a falta de respostas aos problemas seja pela religião ou filosofia.

A resposta cristã as epidemias, baseado em sua moralidade do amor e compaixão, deveria ser muito diferente do comportamento pagão. E realmente foi o que aconteceu. As epidemias eram vistas pelos cristãos como “lição e prova” que deveriam suportar e com elas aprender[14]. Essa nova significação dada aos problemas reais enfrentados pela vida humana teve grande influência no crescimento do cristianismo e estima por parte do povo, pois diferentemente dos pagãos os cristão agiam com amor e compaixão.

Suas ações eram tão diferentes que o próprio imperador Juliano, em carta no ano de 362 d.C., pedira que o sumo sacerdote da Galácia que igualasse os pagãos as virtudes cristãs, pois segundo o imperador o crescimento cristão se dava pelo seu caráter moral[15]. Lemos também na citação do próprio Juliano que diz: “Os ímpios galileus prestam apoio não apenas a seus pobres, mas também os nossos; todo mundo pode ver que nosso povo não conta com nossa ajuda”[16].

Quanto às mulheres houve grande adesão ao cristianismo, pois entre os cristãos as mulheres possuíam um status extraordinariamente maior do que no mundo greco-romano em geral[17]. Esta diferença era fundamental e estava baseada em pensadores clássicos que muito influenciaram a cultura Greco-romana. Um bom exemplo é a biologia da natureza masculina e feminina de Aristóteles, que coloca a mulher em um patamar menor do que o homem, não só a mulher, mas todas as fêmeas dos seres vivos, excluindo o urso e o leopardo. Nas palavras do próprio filósofo:

Todas as fêmeas são menos vivazes que os machos, exceto a do urso e a do leopardo; nestas espécies a fêmea é considerada mais valente. Mas nos outros casos as fêmeas são mais delicadas, mais viciosas, menos simples, mais impetuosas, menos atentas à alimentação dos filhotes, enquanto os machos são, ao contrário, mais vivazes, selvagens, simples e menos astutos. Existem traços destas qualidades virtualmente em todos os animais, porém são mais evidentes naqueles que são mais possuidores de caráter e especialmente do homem. Pois a natureza do homem é mais completa, de modo que também essas disposições são mais evidentes nos seres humanos. Portanto, a esposa é mais compassiva do que o marido e mais dada às lágrimas, mas também mais invejosa e queixosa e mais apta para ralhar e lutar. A fêmea é mais desanimada e deprimida do que o macho, mais pudica e mentirosa, é mais disposta a enganar e tem uma memória mais vasta; além disso ela é mais vigilante, mais temerosa de agir, e em geral é menos inclinada a mover-se que o macho e toma menos alimento. O macho, por outro lado, é um animal mais disposto e é mais valente que a fêmea[18].

Ficando assim evidente como se dava o pensamento sobre as mulheres, colocadas de certa forma como negativas diante do homem, sugerindo assim que seu lugar na sociedade não deveria ser de muita importância, já que não era de confiança e nem possuía capacidade para tanto.

As meninas recebiam pouca ou nenhuma educação, casavam-se muitas vezes antes da puberdade. A mulher era considerada como criança, independentemente da idade, era assim propriedade legal de seu pai ou marido, dos bens que possuíam cabia ao marido gerenciar, e este poderia se divorciar quando quisesse[19]. O chefe da casa poderia “usar” das mulheres da casa como bem lhe parecesse, da mesma forma que à suas posses[20]. Fica evidente a diferença de trato com as mulheres no meio cristão, pois não toleravam de maneira nenhuma os infanticídios seja de meninas ou meninos, condenavam o sexo fora do casamento, o adultério e o divórcio.

Em caso de viúves as mulheres pagãs eram obrigadas a contrair novo matrimônio em dois anos e a sua herança estaria sob a responsabilidade de seu novo marido, em contrapartida quanto às viúvas cristãs eram tidas com grande estima por sua posição na comunidade, eram capazes de administrar a herança de seu finado marido e as que não possuíam bens, as pobres, eram amparadas pela comunidade[21]. Lemos tanto no Antigo quanto no Novo Testamento vários apelos para o cuidado com as viúvas: “Não oprimam a viúva e o órfão, nem o estrangeiro e o necessitado. Nem tramem maldade uns com os outros” (Zacarias 7.10); “Naqueles dias, crescendo o número de discípulos, os judeus de fala grega entre eles queixaram-se dos judeus de fala hebraica, porque suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária de alimento” (Atos 6.1); “Trate adequadamente as viúvas que são realmente necessitadas” (1 Timóteo 5.3); “A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo” (Tiago 1.27).

Na questão do infanticídio para uma melhor compreensão merece nossa atenção o caso do pater famílias, o chefe da casa, que constituía a suprema fonte de poder e de autoridade na casa. A casa ou família era constituída por todos os bens, posses e pessoas pertencentes à propriedade patrimonial diferente do conceito contemporâneo de pai, mãe e filhos. Este seu poder era absoluto, patriarcal e patrilinear, ele tinha o direito de vida, morte, disciplina e domínio sexual sobre todos inclusive crianças nascidas livres. Todos na casa eram virtualmente escravos do poder do pater até sua morte[22].

A prática do infanticídio era corroborada pelos os pensadores gregos, Aristóteles via o infanticídio como uma prática legítima de um estado, possibilitando não só o abandono de crianças como também o aborto[23]. Em escavações na cidade de Ashkelon, cidade portuária localizada ao norte da faixa de Gaza, fora encontrado ossadas de mais de cem bebes atirados no esgoto em algum período do século VI a.C.[24]. Contrastando severamente com as práticas cristã de valorizar a vida em todas as situações, tendo os filhos como herança divina conforme é citado nas escrituras (Cf. Salmo 127.3).

NOTAS: 

[1] KIMBALL, 2011, p. 7.

[2] ABBAGNANO, 1962, p. 652.

[3] GARDNER, 1965, p. 42.

[4] GARDNER, 1965, p. 44.

[5] GARDNER, 1965, p. 44.

[6] GARDNER, 1965, p. 45.

[7] GARDNER, 1965, p. 46.

[8] ARISTÓTELES, 2009, p. 20.

[9] ARISTÓTELES, 2009, p. 37

[10] SINGER, 2002, p. 99.

[11] STARK, 2006, p. 81.

[12] STARK, 2006, p. 91-95.

[13] STARK, 2006, p. 99.

[14] STARK, 2006, p. 95.

[15] STARK, 2006, p. 97.

[16] STARK, 2006, p. 97.

[17] STARK, 2006, p. 111.

[18] ARISTÓTELES, livro IX, parte 1.

[19] STARK, 2006, p. 119.

[20] BALCH, 2008, p. 235.

[21] STARK, 2006, p. 120.

[22] WHITE, 2008, p. 404.

[23] ARISTÓTELES, Política, 2, 7.

[24] STARK, 2006, p. 135.

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