A fé bíblica não sabe dançar conforme a música!

Posted by Eliandro da Costa Cordeiro in VIDA CRISTÃ

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Por Eliandro da Costa Cordeiro

Um ‘concerto’ ao compromisso de fidelidade a Deus (Dn.3:1-30).

Sadraque, Mesaque e Abdenego são a prova de que a fé bíblica não dança conforme a música. Revelam que se o desafio de apresentar-se como Verdadeiro é somente de Deus; por sua vez, o de manifestá-lo Vivo é do caráter da fidelidade de seus servos.

O mundo sempre impôs aos homens as músicas, ritmos e os compassos nos quais espera vê-los se divertirem e esquecerem-se de suas misérias e da verdade de Deus. Daí que, mostrar-se em descompasso com o mundo, viver fora do ritmo dos seus ‘batuques’, é não servir pra festa. E quem nunca se sentiu desconcertado com os valores do mundo atual ou viu a fluidez, a vaidade, conforme cantava Milton Nascimento, ‘nos bailes da vida’?

Sadraque, Mesaque e Abdenego eram ruins de dança. Durante o reinado de Nabucodonosor, Babilônia invadiu Jerusalém levando dela reféns. Dentre eles estavam Daniel, Mizael, Ananias e Azarias. Foram selecionados com o fito de serem especialmente treinados na universidade real. Esses jovens judeus tiveram de enfrentar o problema da contaminação, quando lhes fora oferecido o abundante banquete da corte pagã. Tiveram nomes mudados, obrigados a se aculturarem. Roupas e língua com valores e idéias diferentes tornaram-se objeto de aprendizagem de gosto e conceitos novos. A vida numa realidade desafinada à deles fora vivida com discernimento e flexibilidade.

As Escrituras não negam que, concernente ao conhecimento e ao trabalho dedicado, os jovens hebreus se destacaram. Contudo, àquilo que lhes ferira a fé hebraica, decidiram pela abstinência. A resolução e sensatez de caráter desses moços transcendiam o convívio sócio-cultural. A religião era-lhes entranhável, de modo a comprometerem a própria alma.

Como Religião e Política são esferas bi-polares, mas que se ligam pelos valores transcendentais, Daniel e seus amigos, corretos nos compromissos sociais, são provados em seu compromisso religioso. A prova consistia em, tão somente, “chaculejar” o corpo e adorar a estátua de ouro erguida pelo rei ao sinal da harpa e outros instrumentos. Longe de distanciar a fé- viva no coração -da emoção (manifesta corporalmente), ou de dizer que nem sempre o corpo manifesta as intenções da alma, os servos de Deus decidem não dicotomizar o mundo dos negócios com a fé em Jeová. Decidiram demonstrar no corpo o que dizem no coração, isto é, ouviram a música babilônica, mas não dançaram aos pés da estátua do rei.

Compreende-se nas ações desses jovens o desafio que a Palavra de Deus nos faz. O mundo não espera uma postura apenas de palavras ou somente de expressões arte-corporais dos crentes. O desafio de se manter fiel a Deus só nos é possível em situações contrárias, quer sejam boas (como fora no início na vida de Daniel e seus amigos), ou más (como ocorreu com os mesmos no decurso de suas vidas no palácio babilônio).

A história narrada no livro do profeta Daniel serve-nos como estímulo e consolo. Estímulo, porque manifesta a excelência de um caráter nutrido de quesitos morais e sociais. Estes quesitos impedem-nos de acreditar que é impossível ser fiel a Deus num ambiente onde tudo o que se vê ou toca é do diabo, como se viu narrado. Na Babilônia, a melhor maneira de amarrar o diabo seria com os laços da obediência a Deus (Tg. 4:7).

A história também consola. Como bem esboça o texto, Deus jamais abandona aqueles que, corajosamente, manifestam em confissão pública (verbalizada e expressa de qualquer outra forma) a crença Nele (Dn.3:16).

Nem sempre dançar conforme a música é a melhor forma de sair ou evitar problemas (Dn.3:15). Os amigos de Daniel entendem que a melhor maneira de se livrarem das lutas é depositar a fé em Jeová, seja para morrer ou viver (Dn.3:16-18). Não são significantes como exemplos à fé, tão somente, por estarem dispostos a morrerem por Yahweh, mas, mormente, por terem a disposição de viverem para o Senhor.

A experiência de se morrer como mártir pode ser singular e, óbvio, única. Porém, viver para Deus é dedicação e prova contínuas, onde se deve morrer todos os dias (Mt.10:38;16:24;Rm8:36;Gl.2:19).

Ao acompanhar a história no livro de Daniel, os três amigos deste profeta se revelam como testemunhas vivas do poder de Deus no simples fato de se disporem a pagar o preço cuja fé lhes exigira. O preço não lhes era a morte, mas a vida diária como reflexo de compromisso para com a vida de Deus (Rm.12:1,2;)

Ora, suicidas, fanáticos religiosos morrem como mártires pela fé em seu deus. Isto mostra que morrer por algo ou alguém em que se crê não é tão difícil para muitos homens. Conviver com as lutas e tudo aquilo que se opões à sua fé torna-se,para muitos, mais insuportável do que a morte. Esta é uma diferença importante, uma vez que, os servos de Yahweh não são chamados para morrerem (ás vezes, isto é inevitável [Ap.12:11]) por Deus, mas a demonstrarem que vale a pena viver pela fé Nele (Fil.1:21;ITm.3:7;5:10; Ap.1:9;6:9).

Mesmo sob contextos que distanciavam os jovens hebreus de sua fé hebraica e dos olhos de seu povo, decidiram pela fidelidade a Deus. Ao que parece, a fé não permite desculpas quando o assunto é fidelidade (I Co. 10:13). A música babilônica não lhes tocava na alma.

A coragem de dizer não (v.18):

A. Apesar de todos dizerem sim (Dn.3:4,7): É fácil dizer não quando não existem complicações religiosas ou mortes envolvidas. Se Daniel e seus amigos não entendiam que curvarem os joelhos diante da estátua do rei, mas manterem o coração de pé não seria interpretado, por Deus, como idolatria. Ora, nem sempre não dizer não é dizer sim (3,4). Daniel sabe que, embora não houvesse idolatria nos relacionamentos aos quais manteria na distante terra babilônica, há idolatria em comprometer-se com as mesmas obras dos babilônios. Neste caso, o silêncio acerca da fé no Deus de Israel soaria como consentimento à idolatria do reino.

Esses moços foram escolhidos por Aspenaz, chefe dos eunucos para fazerem parte da ‘escola real’. Aprenderam ciência, alcançaram sabedoria e conhecimento, aprenderam a língua. Contudo, abandonar a fé no Deus de Israel seria esquecer a própria história e identidade. Disseram sim para muitas coisas, mas não para todas as coisas na Babilônia (Dn.1:8).

Não há erro algum em se querer conhecimento, querer subir na vida, ter um bom emprego, ter amigos… O perigo reside na “ração diária do rei” e o erro consiste em acreditar que o corpo distancia-se da alma como o seco do úmido. Não se deve ignorar que um vaso de argila se forma com o úmido e o seco que, uma vez, misturados e secos formam um único objeto- o vaso.

B. Dizer não, apesar de a música parecer de adoração: Às vezes, dizer não implica em permanecer com o mesmo salário, não subir no cargo, continuar com o mesmo carro ou perder o namorado.  Por que é tão difícil dizer não? Talvez porque a maioria das pessoas sabe dançar conforme a música. Revelar que se é um ‘péssimo pé-de-valsa’ no meio do salão, é nadar contra a maré (Dn.3:4,5).Porém, o verdadeiro cristão sabe que ser corretamente religioso não significa ser corretamente fiel. A prova da verdadeira fidelidade a Deus não parece ser projetada em obras grandiosas ou confissões de fé incriticáveis (Mt.24:1-13). A fidelidade é fruto de convivência perseverante e entregas de confiança aos cuidados do outro. Talvez, outros no lugar desses jovens hebreus acreditariam que, distantes da terra natal, não é mais necessário guardar a fé paterna. Mas para Daniel a fé paterna também é a sua fé pessoal.

C. Dizer não, apesar dos negócios (12): Apesar de Daniel e seus amigos gozarem de certa posição de destaque no reino de Nabucodonosor, não se importaram em dizer não ao rei. Abrir mão de algo para sair da provação é bem diferente de abri-la para ir à provação! Não há escusas para se obedecer a ordens superiores quando esta é contrária a Deus.

Saber dizer não à musica do rei pode levar você à perdas. Talvez você perca o namorado, o amigo, o emprego. Talvez você fique duro no final do mês só porque disse não ao dinheiro sujo do patrão.  Mas não se esqueça: uma música não dura muitos minutos, os seus efeitos sim!

D. Dizer não, apesar de propostas (15): Azarias e seus amigos recusaram qualquer ‘proposta musical’ que não fosse a de adorar ao Deus de Israel. Qualquer proposta que nos seja feita que não vise o louvor a Deus deve ser rejeitada, pois vale mais estar numa fornalha com Deus do que numa vida cheia de música sem a alegria do Senhor (Jó: 41:22). Nenhuma proposta pode ser melhor do que a de estar com Deus para o que der e vier.

Coragem de manter a postura (14-16): A vida fiel a Deus não consiste em apenas dizer não; é também uma luta de se manter erétil e inflexível ao ritmo e batuques do mundo. A música que o mundo toca muda repentinamente de ritmo a fim de obter o que deseja, isto é, o gosto musical do fiel. E não é desconhecido que, quando não se acha falhas no caráter de alguém, é bem possível que a encontrará em sua religião. Porventura, não foi o que tentaram os inimigos de Daniel? Não é o que o mundo continua a cantar na mídia, nas universidades, na ética e na moral?

A fidelidade a Deus não é algo que se começa diante de uma grande prova (Mt:25:21; Lc.16:10). Ela começa desde muito cedo, em acontecimentos diários, comuns, com centavos, pedacinhos e mentirinhas. Daniel demonstra esta característica da fidelidade desde quando chegou à Babilônia. O rei reconheceu nele haver um espírito de excelência, uma vida devota a Deus (Dn.1:8, 5:12).

Ora, muitos esperam a chegada de uma crise para fazer propósito de fidelidade a Deus (como se isto fosse um favor a Deus!): quando o médico o desenganou, o dinheiro acabou (mas as contas ainda não) ou quando os leões famintos os aguardam de boca aberta. Na verdade, os momentos difíceis apenas salientarão a fidelidade que o crente vive em qualquer momento de sua vida.

Manter a postura de fé em Deus implica em diversas confissões que não podem ser ouvidas só com os ouvidos ou arrazoada pelo intelecto; mas sê-las feitas no coração:

Os servos de Deus não parecem estar preocupados com uma confissão de fé pública e sonora. Ocupam-se na confissão cujo coração se dobra perante Deus e exige de seu corpo a reação natural imediata (Dt.6:6;5:29;Sl.119:47,115;Jo.14:15;IJo.5:2). Esses moços hebreus parecem compreender que a fidelidade a Deus deve dominar corpo e alma da mesma maneira em que a música controla o corpo e as emoções. Se sem música não se dança, sem fidelidade a Deus não se o pode servir.

Fidelidade a Deus não é pressuposto de que a fé fará o que o crente espera. É isto um fato, pois, os jovens hebreus demonstram submissão a Deus apesar de a fé não realizar o que, para muitos hoje, poderia sugerir fazer; isto é, impedir os crentes de caírem na fornalha (Is.43:1,2). A sua fé muda o ângulo em que se vê a provação.

A narrativa deste capítulo evoca que, na resposta dos jovens a Nabucodonosor a história desses era dependente do rumo em que Yahweh o quisesse dar. Não era o rei ou os sátrapas (Êx.7:3;14:4;Pv.21:1;Dn:6:14), nem os jovens mesmos quem decidiriam (Sl.17:5;37:23;Pv.16:9;20:24;Mt.8:20;Jo.21:18). Se a história do mundo segue sobre as mãos soberanas de Deus, quanto mais a de seus servos (Sl.73:2;85:13;IPe.5:10)!

a. Fidelidade pressupõe, antes de tudo, submissão à vontade de Deus. É a expressão de um servo que nem sempre sabe por que Deus faz o que faz, mas não deixa de confiar que, aquilo que ele faz é sempre o melhor (Dn.3).

b. A fidelidade e a fé nem sempre livram os crentes da fornalha. Às vezes, é o que os leva à ela. Do que nos vale a fé, pois então? A fé e a fidelidade não se põem ao nosso alcance para que nos livremos das lutas. Antes, ao passarmos por elas, saibamos que não estamos sozinhos e as suportemos como servos de Deus, em fidelidade Àquele que nos chamou (Rm.8:35;12:12;IICor.1:4,8;7:4,5; Tg.1:1-8;5:10).

c. A fim de comprovar que a fé é este poder (dom) que nos faz manter a postura ‘para o que der e vier’, lembremo-nos do ensino de Hebreus. Para este, a fé é muito mais do que aquilo que nos faz apagar o fogo da fornalha. A fé é aquilo que nos leva, até mesmo, a morremos por Deus (Hb.11:34-44). Pois, conforme o texto, aqueles que venceram e aqueles que morreram venceram igualmente por fé.

Realmente, os crentes não conseguem dançar a música que o mundo toca (Mc.10:43)! O mundo ‘canta’ pertencer aos mais espertos e não aos fiéis. Ele ‘canta’ que fidelidade conjugal é imoral ao instinto animal e evolutivo da natureza humana e que, abrir mão dos prazeres por amor à fé em Deus é loucura. Daí que os crentes para se manterem fiéis a Deus devem, além de discernirem as “letras” das músicas, manterem seus corpos rígidos aos batuques do diabo (Rm.12:1;6:12,19;ICor.6:15;II Cor.4:10).

Este texto bem pode nos servir, hoje, como que analogia ao nosso compromisso com Deus e a luta que suportamos por amá-lo.  O desejo de Nabucodonosor por adoração perfez o coração reinante dos homens neste mundo. Buscam a sua glória acima de qualquer preço, mesmo que seja o que lhe é absolutamente impossível por natureza: ser Deus.

O mundo tem vários caminhos que podem levar o crente à corrupção de sua adoração a Deus. Contudo, a mais eficaz ainda parece ser a da adoração privada. A sutileza com a qual os amigos de Daniel são chamados a se dobrarem perante a estátua do rei, inicialmente, poderia ser subjetiva. A religião poderia ser aquela que os joelhos se dobram, mas nunca o coração. Mas dificilmente um coração que só se dobra a Deus estimulará os nervos a se dobrarem perante aquilo que, por convicção, sabe ser mentira.

Lembremos-nos que na tentação de nosso Senhor (Mt.4:1ss) encontra-se um exemplo da mesma provação a qual passaram os jovens da Bíblia e, igualmente passamos nós também.Ela começa das sensações, músculos e nervos até que alcança a alma. Neste ponto, Satanás pede por adoração. Jesus não separou músculos e alma da adoração, mas disse: “só ao Senhor teu Deus adorarás”.

Em Cristo temos a adoração que se integraliza em pensamento e vontade, corpo e nervos, alma e corpo (Mt.22:37). Juntos são os elementos que constituem o homem em um único ser: instrumento e razão de Ser adoração a Deus.

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