Protestantes e Católicos: qual a diferença?

Posted by The Gospel Coalition in Catolicismo Romano | RELIGIÕES

protestantes e catolicos

Por Kevin DeYoung

Traduzido por Anderson Rocha – Artigo original aqui.

Pergunte a um protestante sério qual é a maior ameaça para o cristianismo ortodoxo hoje, e ele pode mencionar as hostilidades culturais, a revolução sexual ou o nominalismo em nossas igrejas. Mas se você tivesse feito essa mesma pergunta para um Protestante há uns cem anos, ele quase certamente mencionaria a Igreja Católica Romana. Até recentemente, protestantes e católicos neste país eram, se não inimigos, seriam como jogadores em equipes opostas.

Hoje, grande parte dessa animosidade desapareceu. E numa grande extensão, o descongelamento entre protestantes e católicos tem sido uma coisa boa. Protestantes e católicos sinceros muitas vezes se acham co-beligerantes, defendendo o nascituro, mantendo o casamento tradicional e defendendo a liberdade religiosa. E em uma época em que se exclui a doutrina, os protestantes evangélicos muitas vezes compartilham mais em comum, teologicamente, com uma devotada católica romana em ortodoxia histórica do que com membros liberais de suas próprias denominações. Eu, pessoalmente, me beneficiei ao longo dos anos de autores católicos como G. K. Chesterton, Richard John Neuhaus e Robert George.

No entanto, as diferenças teológicas entre protestantes e católicos ainda são amplas e em lugares muito profundos. À medida que o aniversário de 500 anos da Reforma se aproxima, é importante estar familiarizado com alguns dos principais problemas que legitimamente nos dividem, para que não pensemos que todas as colinas teológicas tenham sido reduzidas e que todos os vales dogmáticos se tornem aplanados.

Abaixo estão alguns dos principais pontos que ainda separam católicos e protestantes. É claro que muitos católicos podem não acreditar (ou mesmo saber) o que a teologia formal deles afirma. Mas, procurando compreender os documentos oficiais da igreja, podemos ter uma boa ideia do que os católicos deveriam acreditar e ver como isso difere das crenças protestantes tradicionais (a não ser que seja indicado, as citações são do Catecismo da Igreja Católica).

A Igreja

Desde o Vaticano II, a Igreja Católica suavizou sua posição em relação aos protestantes, chamando-os de “irmãos separados”. No entanto, para ser parte da igreja em sua plenitude, deve-se imergir no sistema católico romano de sacramentos, ordens e sob a autoridade do Papa. “Completamente incorporados à sociedade da Igreja são aqueles que… estão unidos na estrutura visível da Igreja de Cristo, que governa aqui através do Sumo Pontífice e dos bispos”.

Além disso, o Papa é considerado infalível quando fala ex cathedra (da cadeira); isto é, quando ele faz declarações doutrinárias oficiais.

A Igreja Católica também tem sete sacramentos em vez de dois – Eucaristia (ou Ceia do Senhor) e batismo, como os protestantes, e depois penitência, ordens sagradas, casamento, confirmação e últimos ritos.

Escritura

Os católicos têm um cânone bíblico maior. Além dos 66 livros na Bíblia Protestante, as Bíblias Católicas incluem os Apócrifos, com livros como Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Sirácida (Eclesiástico) e Baruque. O ensino católico também destaca mais a tradição do que os protestantes. Reconhecidamente, muitos evangélicos sofrem por ignorar a tradição e a sabedoria do passado. Mas a teologia católica vai além do respeito pelo passado; Ela a sacraliza. “Tanto a Escritura quanto a Tradição devem ser aceitas e honradas com iguais sentimentos de devoção e reverência”, afirma o Catecismo.

Da mesma forma, o Magistério tem autoridade para fazer interpretações definitivas. “A tarefa de dar uma interpretação autêntica da Palavra de Deus, seja na sua forma escrita ou na forma da Tradição, tem sido confiada ao viver, ao ensino, somente ao serviço da Igreja… aos bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o Bispo de Roma”. A questão da autoridade continua a ser a maior divisão prática entre protestantes e católicos.

Ceia do Senhor

O centro da fé católica é a Missa (seu serviço de adoração), e o cerne da Missa é a celebração da Eucaristia. Os católicos acreditam que o pão e o vinho são transubstanciados no próprio corpo físico e no sangue de Jesus Cristo.

Os elementos são oferecidos como um sacrifício da igreja e um sacrifício da obra de Jesus Cristo na cruz. Não é simplesmente uma lembrança do sacrifício de Cristo, mas a mesma obra de expiação: “O sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício… o sacrifício [da Eucaristia] é verdadeiramente propiciatório”.

Batismo

Os católicos ensinam que “a justificação é conferida no batismo”. As águas do batismo lavam o pecado original e nos unem a Cristo. O batismo não é meramente um sinal e selo de graça, mas confere a graça salvadora.

Maria

Maria não é apenas a Mãe de Cristo, mas a Mãe da igreja. Ela foi concebida sem pecado original (concepção imaculada) e no fim de sua vida terrena “foi levada corpo e alma para a glória celestial, e exaltada pelo Senhor como rainha sobre todas as coisas” (suposição). Ela intercede pela igreja, “continua a nos trazer os dons da salvação eterna”, e é “uma mãe para nós na ordem da graça”.

Maria era mais do que apenas a mãe cheia-de-fé de Jesus: “A Santíssima Virgem é invocada na Igreja sob os títulos de Advogada, Ajudadora, Beneficiadora e Mediadora”.

Purgatório

Aqueles que morrem na graça de Deus, mas ainda imperfeitamente purificados, são assegurados da vida eterna, mas primeiro devem passar pela purificação no purgatório. Por causa desse estado intermediário presente, a Igreja Católica desenvolveu a prática da oração pelos mortos. “A Igreja também elogia esmolas, indulgências e obras de penitência empreendidas em nome dos mortos”.

No que diz respeito à salvação daqueles que não ouvem o evangelho, o Catecismo Católico está comprometido com o inclusivismo: “Aqueles que, sem culpa própria, não conhecem o Evangelho de Cristo ou a Igreja, mas que, no entanto, buscam a Deus com um sincero coração e, movido pela graça, tentam em suas ações fazer sua vontade conforme elas o conheçam através dos ditames de sua consciência – também podem alcançar a salvação eterna”.

Mérito

Não é justo dizer que “os católicos ensinam que você pode ganhar a sua salvação”. Isso pode ser o que muitos católicos acreditam, mas o ensino oficial de Roma é mais matizado, embora ainda muito longe do que a Reforma entende sobre o sola gratia.

O Catecismo resume: “Uma vez que a iniciativa pertence a Deus na ordem da graça, ninguém pode merecer a graça inicial do perdão e da justificação, no início da conversão. Movido pelo Espírito Santo e pela caridade, podemos então merecer para nós mesmos e para os outros as graças necessárias para a nossa santificação, para o crescimento da graça e da caridade e para a realização da vida eterna”.

Justificação

O ensino católico rejeita a doutrina protestante da justiça imputada. A questão é esta: a justiça pela qual nós somos perdoados e nos justifica diante de Deus é uma justiça que é operada em nós ou uma justiça que é por nosso mérito? Os católicos dizem o primeiro, os protestantes o último. De acordo com o ensino católico, a justificação é mais do que a declaração de Deus de nossa justificação baseada na obra de Cristo, é também uma renovação do homem interior e sua reconciliação com Deus. Certamente, são coisas boas também, mas os católicos tornam-se presentes dentro e por meio da justificação, ao invés de apenas pela fé.

O Concílio de Trento, da contra-reforma católica do século XVI, declara: “Se alguém diz que os homens são justificados, seja pela única imputação da justiça de Cristo, seja pela única remissão dos pecados, com exclusão da graça e caridade que é derramada em seus corações pelo Espírito Santo, e é inerente neles, ou mesmo que a graça, por meio da qual somos justificados, é apenas o favor de Deus: seja anátema”. Enquanto os protestantes e os católicos podem trabalhar individualmente para encontrar um terreno comum sobre a justificação, o ensino oficial da Igreja romana ainda se opõe a qualquer noção de uma justiça imputada através da fé somente.

Conclusão

Os católicos e os protestantes devem se tratar de maneira decente e com respeito? Claro. Trabalharemos lado a lado em questões morais e sociais importantes? Muitas vezes. Podemos encontrar cristãos nascidos de novo que adoram nas igrejas católicas? Tenho certeza. Mas as discordâncias entre protestantes e católicos, são insignificantes? Dificilmente. As diferenças ainda existem, e elas ainda importam.

Santifica-nos pela Tua verdade, ó Senhor; a Tua palavra é a verdade.

Tradução: Anderson Rocha

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