Resenha: O futuro do Calvinismo

Posted by Maurício Montagnero in REFLEXÕES TEOLÓGICAS

RESENHA-CALVINISMO

Por Maurício Montagnero

LIMA, Leandro Antônio. O Futuro do Calvinismo. São Paulo, Cultura Cristã, 2010, 240 p.

No mês de Março do ano de 2009 uma revista americana, Times Magazine, publicou um artigo onde listava as dez ideias que estavam mudando o mundo, dentro dessas colocou o Novo Calvinismo como em terceira colocação. Segundo Leandro Antônio de Lima, autor do livro em resenha, foi tal artigo que o influenciou a escrever esta obra, conforme disse na entrevista resenha 06 do canal Mackenzie – encontra-se no Youtube. O seu trabalho mostra a relevância do Calvinismo, na nova perspectiva que se encontra, para os desafios da pós-modernidade.

O autor mostra a distinção do Calvinismo, NeoCalvinismo e Novo Calvinismo. O primeiro está ligado com as confissões históricas da fé reformada como Dort e Westminster, de séculos passados. O segundo é um movimento do começo do século XX que iniciou com o Estatista Holandês Abraham Kuyper, e tinha uma tendência de diálogo cultural e impacto na sociedade, de influência do cristianismo na perspectiva calvinista como um sistema total de vida. O terceiro é o movimento que está ativo na pós-modernidade com impacto midiático, especialmente em redes sociais e público jovem; e litúrgico, ou seja, nos cultos comunitários realizados nas igrejas, cultos mais leves, musicais e que visa o ser não só como “razão”, porém, também, como “emoção”.

No prólogo e na introdução do livro salienta a relevância do tema e o que o influencio a produção da obra, conforme visto no primeiro parágrafo. Das dez ideias que tem mudado o mundo a única de perspectiva religiosa é o Novo Calvinismo. Além disso, é exposto rapidamente o básico do NeoCalvinismo Kuyperiano.

O trabalho segue divido em três partes. A primeira parte Leandro Antônio de Lima faz um relato e análise histórica do Calvinismo na modernidade. Embora o Calvinismo não começando em João Calvino, ele deixa isso bem claro no livro, primeiramente expõe a pessoa de João de Calvino e a teologia o qual produziu, salientando que não fora uma teologia limitada sotereologicamente, contudo, de impacto cultural, social, político e etc., em Genebra. Continua com a consolidação teológico-doutrinário do Calvinismo em seus concílios e sínodos, especialmente na soteoreologia, como também nota que a principal influência para o Calvinismo foi Teodoro de Beza, e que existem leituras interpretativas em Calvino que diferem/divergem do Calvinismo em si, como, por exemplo, o Amyraldianismo de Moisés Amyraut. O autor ainda mostra a influência do sistema Calvinista sobre a cultura, mas, especialmente sobre a economia e o capitalismo, algo que Max Weber já tinha analisado no século passado em sua obra: A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Ainda nesta parte se vê movimentos na modernidade que levaram o nome Calvinismo, mesmo sendo alguns pseudos, como segue: 1) O Escolasticismo Calvinista; 2) A Escola de Princeton; 3) O Liberalismo Teológico; 4) A Neo-Ortodoxia; e 5) O Fundamentalismo. Por fim, encerrando, há uma análise mais profunda do NeoCalvinismo em Kuyper como seu sistema “total de vida” e como tal movimento fez surgir uma apologética mais contextualizada e dialógica para realidade contemporânea.

A segunda parte, primeiramente, é exposta com um bom pano de fundo histórico e filosófico, falando sobre o humanismo renascentista e o racionalismo iluminista, além de expor grandes nomes da filosofia e trazer um resumo excelente de pensadores filosóficos como Descartes, Lockey, Kant, dentre outros; e como impactaram a fé cristã. Segue com as duas vertentes que há no pós-modernismo, a desconstrucionista e a construtiva; a primeira reage com desconfiança e incredulidade aos projetos, cosmovisões e metanarrativas, como também do próprio sentido e da ética; a segunda vê com mais positividade, uma leitura que gera novos valores, nova epistemologia; por fim ele avalia ambas as vertentes. Finalizando, aparece qual deve ser o relacionamento Cristão/Calvinista com a pós-modernidade com três propostas: 1) Aceitação simples; 2) Negação Simples; e 3) Aceitação crítica; os próprios nomes já deixam entendido o significado de cada um. Em cada proposta apresenta nomes que tem sido as grandes referências do Novo Calvinismo atualmente, que serão citados no próximo parágrafo.

A terceira parte, nota-se que é mais objetiva com a proposta do livro, o autor fala sobre o Novo Calvinismo e como tal tem influenciado a pós-modernidade, além de dar dicas de como isso deve continuar. Apresenta o surgimento, influência e afluência sobre o público jovem, como também, sua exposição nas redes sociais. Diferentemente do Neopentecostalismo que tem uma expressão maior na televisão e rádio, o Novo Calvinismo está presente na Internet com seus blogs e páginas em redes sociais. Há de notar que os grandes expoentes deste movimento tem sido John Piper, Mark Driscoll e Alberta Mohler. O autor ainda pontua as diferenças entre o Novo Calvinismo com o Calvinismo Tradicional, conforme Mark Driscoll pontuou, no entanto, Leandro Lima argumento criticamente aos pontos que foram feitos. Nesta parte há a analise do Novo Calvinismo com o mundo evangélico atual; e sugestões para a agenda do Novo Calvinismo. Visando uma cosmovisão com agenda reformada o autor sugere: 1) A prioridade de Deus; 2) O valo do ser humano; e 3) A importância do mundo. Por fim mostra os maiores desafios dialógicos e apologéticos para este movimento nos dias de hoje que é a questão da Bíblia, a importância da confessionalidade, o dilema do culto e os desafios da evangelização. Mas esses desafios não são todos vistos como negação ou aceitação simples, porém, com aceitação acrítica.

Na conclusão do livro ele é econômico nas palavras e a usa como um tempo de desafio para o cristianismo diante a atualidade.

O trabalho do autor é uma obra excelente, de grande conteúdo e com profundidade. Contudo, fora prolixo em assuntos que não estavam diretamente ligados ao tema proposto, tornando a leitura exaustiva e levando a perder a empolgação do tema. Temas históricos e filosóficos que foram expostos que necessariamente não tinham relação com a proposta do livro foram abordados. Além disso, vale notar que o autor fez uma relação de movimentos Calvinistas e Pseudo Calvinista com linhas teológicas que não tem o Calvinismo como base nem para serem verdadeiras e nem para serem falsas, como, por exemplo, o liberalismo teológico. Outra critica pontuada do livro é a incoerência de mostrar como o Novo Calvinismo é dialógico e contextualizador, todavia, o autor não mostra as devidas implicações e aplicações para o contexto brasileiro, visto ser um brasileiro. Cita nomes que representam este movimento, todos ligados ao EUA, mas não cita nomes que representam o movimento no contexto brasileiro; assim mais uma vez vê-se a dependência que há da teologia como ponto de contato com a cultura vigente à cultura e teologia norte americana.

Vale destacar que este livro é desafiador! Provoca pensamento e leva os seus leitores a saírem da zona de conforto. É uma gama de conhecimento, um aprofundamento sobre o tema Calvinismo e mostra como esta teologia é muito mais dos apenas 5 pontos da doutrina da salvação; é um sistema total de vida. Infelizmente há uma dependência do evangelicalismo latino-americano e brasileiro com a Teologia da Libertação ou TMI que tem uma teologia questionável biblicamente, mas a obra de Leandro Antônio de Lima mostra como o conservadorismo e o Calvinismo pode ter em suas agendas os mesmos pontos, porém, com uma teologia mais confiável; e não faz isso somente com pressupostos, mas, também, com aplicações. Além disso, interessante o ensino dele da postura do cristão e da igreja diante o pós-modernismo, se deve ser com aceitação simples, negação simples ou aceitação acrítica; como a própria exposição do pós-modernismo se mostrou excelente.

Finalmente, este livro é relevante e leva a pensar a vida cristã e a comunidade local além dos limites do prédio e dos cultos comunitários, e vê o exercício da fé cristã de forma contemporânea e contextual para todas as esferas da vida individual e coletiva.

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