Os ‘Solas’ da Reforma Protestante

Posted by Antônio Pereira Jr. in REFLEXÕES TEOLÓGICAS

os solas

Por Antônio Pereira Jr.

“Porém enviou profetas entre eles, para os reconduzir ao SENHOR, os quais protestaram contra eles; mas eles não deram ouvidos”, 2Cr 24.19.

De onde vem o termo “protestante”? Recebemos o nome de protestantes pelo fato de Lutero, na época, ter conseguido poderosos aliados entre a nobreza e a alta burguesia, que o auxiliaram a difundir sua doutrina pelo norte da Alemanha, pela Suécia, pela Dinamarca e pela Noruega. Foram esses aliados que, em 1529, protestaram contra a preservação das medidas tomadas pelo imperador Clemente 7º contra Lutero, que impediam cada Estado de adotar sua própria religião.

A partir desse protesto é que se difundiu o nome “protestante” para designar os cristãos “não católicos”. A luta de Lutero, e de outros reformadores, não foi apenas contra as indulgências, mas para que houvesse um retorno à Palavra. A meu ver, esse mesmo clamor deve ser levantado nos dias hodiernos. Hoje, os protestantes não protestam mais. Calam-se diante dos erros e aplaudem os espetáculos eclesiásticos à semelhança das antigas indulgências.

A Igreja está – a semelhança dos tempos da Reforma Protestante – vivendo algumas crises. Gostaria de citar apenas duas:

1.CRISE DE IDENTIDADE– A primeira crise é a Crise de Identidade. Dentro da salada de mensagens que se ouve hoje uma pergunta nos intriga: o que é ser cristão nos dias hodiernos? Temos grandes dificuldades de identificar quem é cristão de fato e aqueles que estão só preocupados com seu bolso, cujo deus é o seu ventre. Urge cumprir o papel para qual o qual estamos neste mundo –sermos sal e luz. Temos hoje um grande desafio: crescer sem perder a identidade.

2.CRISE DOUTRINÁRIA– A segunda é a Crise Doutrinária. Prega-se de tudo, menos a Bíblia. Os púlpitos estão recheados de mensagens de auto-ajuda e psicologia divorciada de Bíblia. O que os homens necessitam não é de auto-ajuda e sim da ajuda do Alto. Por isso, é necessária uma auto-avaliação daquilo que os Reformadores tinham por saúde da Igreja: a sã doutrina. Uma Igreja sem a sã doutrina está doente e a ponto de sucumbir, definhar e morrer.

Onde poderíamos encontrar um resumo da sã doutrina? Respondo: nos “Solas” da Reforma Protestante. No entanto, os Solas da Reforma estão sendo substituídos na igreja de hoje. Ai é que se vê o impacto negativo que isso provoca.

Para que possamos entender isso de maneira mais clara precisamos conhecer alguns princípios defendidos pelos reformadores, que, infelizmente, são desconhecidos daqueles que se dizem protestantes hoje. O que são os Solas da Reforma? Poderíamos resumi-los nos seguintes:

SOLA SCRIPTURA: A Escritura Sagrada é a nossa única regra de fé e prática. Teoricamente é isso que um “protestante” clássico defende, no entanto, na prática não é o que se observa. “Somente a Bíblia” deveria significar que nada mais tem autoridade igual ou superior à da Palavra de Deus pra minha vida, quer seja a palavra de qualquer homem ou anjo, conforme: 2Tm 3.16-17; Ap 22.18-19 e Gl 1.8-9. Contudo, alguns dizem o seguinte: “eu sei que a Bíblia diz isso, mas eu tive uma revelação de Deus”. Ou, “não importa o que a Bíblia diz, o que importa é o que meu líder abençoado falou”. Mesmo que o “que ele falou” vá de encontro a Verdade.

Todo verdadeiro avivamento trouxe um retorno à Palavra. É preciso que nós mesmos nos alimentemos de alimento sólido que encontramos, não nas “novas revelações”, mas nas antigas doutrinas da Graça, como diz-nos o escritor aos hebreus: “Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento” – Hb 5.12.

É preciso entender que as experiências não estão acima das Escrituras, por mais extraordinárias que pareçam ser. O povo de Deus no decorrer da história sempre teve experiências com o Senhor – tanto boas quanto ruins –, no entanto, nenhuma delas é maior do que a Palavra Revelada, aliás, a Bíblia já nos adverte que devemos examinar as experiências pela Palavra e não o contrário – 1Jo 4.1. Quantas superstições e heresias antibíblicas têm penetrado nas igrejas que rejeitam esse importante princípio de “Sola Scriptura”?

SOLA GRATIA: Somente pela Graça é que somos salvos. Nossa salvação se dá somente pela graça de Deus. Não existe nem mesmo uma centelha de bondade no homem que tenha movido o criador a salvá-lo – Rm 3.10-20 e Tt 3.3-7. Para herdar o Reino dos Céus temos que ser “pobres em espírito”. Ou seja, somos tão pobres (ptochos em grego, significa aquele que não tem nada, miserável, mendigo) que nada temos para oferecer a Deus em troca de nossa salvação. Isso é justamente o oposto daquilo que muitas igrejas pregam hoje. Salvação não é conquistada por barganha. É por pura Graça de Deus. “E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça”, Rm 11.6.

Hoje, prega-se que o homem precisa cooperar com a salvação. Fazendo correntes, sacrifícios, e barganhas com o Criador. Isso acontece tanto na Igreja católica como em algumas que se dizem evangélicas. Ou seja, você é salvo pelo seu esforço. Você conseguirá sua bênção se fizer algo pra Deus. Não há maior engano quanto a esse assunto. Efésios 2.8 é muito claro: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus, não de obras, para que ninguém se glorie”.

SOLA FIDE: O único meio pelo qual o homem pode se achegar a Deus é mediante a fé no sacrifício perfeito e substitutivo de Jesus Cristo. Obra, objeto ou pessoa alguma pode tomar o lugar da fé em Deus – Rm 1.17 e Ef 2:8. Hoje, o povo crer que se pode chegar a Deus através de amuletos abençoados. Criou-se um fetichismo evangélico, onde os objetos têm um poder inerente que vai trazer bênçãos sem fim – isso semelhante ao misticismo da Idade Média, tão combatido pelos reformadores. Homens no passado e no presente: “Cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles…”, Fp 3.19.

SOLUS CHRISTUS: O único objeto da fé é Jesus Cristo. Ele é o salvador dos homens, o único caminho que nos leva a Deus. Qualquer outro tipo de mediação entre Deus e os homens que não seja por Jesus é invenção de mentes contaminadas pelo erro – At 4.12. Hoje, para muitos, Jesus Cristo não é mais o único caminho. É preciso crer na Igreja, no apóstolo ou no bispo ungido. È preciso Cristo voltar a ser o centro da pregação, do culto e da vida, para que a igreja chegue à maturidade: “Desejando afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo”, 1Pd 2.2.

SOLI DEO GLORIA: Somente a Deus pertence toda a glória. Nada deve ser atribuído a nós ou a qualquer outro ser celestial, humano, vivo ou morto ou ordenança de igreja alguma a não ser a própria pessoa de Cristo. Tudo vem de Deus por Cristo. “Ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém”, Jd 25. Hoje, os holofotes estão direcionados ao homem (Pastores, cantores, crentes etc). O “show da fé” nas igrejas tomou o lugar da Glória de Deus.

Como disse Charles Spurgeon certa vez: “A apatia está por toda à parte. Ninguém se preocupa em verificar se o que está sendo pregado é verdadeiro ou falso. Um sermão é um sermão, não importa o assunto”. Isso foi escrito a mais de cem anos. O que diria Spurgeon se vivesse hoje?

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