O calendário da Eternidade fixado na teia da aranha

Posted by Eliandro da Costa Cordeiro in REFLEXÕES TEOLÓGICAS

teia-de-aranha

Por Eliandro da Costa Cordeiro

O calendário, os rituais de passagens e aniversários não me assustam mais. Aprendi com Agostinho e com Pascal[1] que o Tempo nunca aceitou se prender às ideias humanas. Observaram que o passado, futuro e, mormente, o presente são furtivos. A vida segue solta, livre (Ec.11.4).

O que eu aprendi com o calendário ou com os réveillons? Ninguém deve estar apegado a esta vida leve, frágil, se não estiver preparado para vivê-la na eternidade. Parece que o pêndulo, o peso para tamanha “insustentável leveza do ser” se encontra nela- a eternidade.

O que nos surpreende com a eternidade é o fato de que ela não é Tempo. Ela não é presente, passado ou futuro. Não é um tempo inamovível ou imóvel. Prima facie, ela é Deus. Secundariamente, a eternidade é um estado, cujo SER não é privação, mas plenitude, e os seus movimentos não mais são geração e corrupção (só para lembrar-nos de Aristóteles). O que se É é-se em qualquer tempo, até à eternidade. A eternidade é esta impossibilidade de não-ser. Existir é SER eterno.

Mas, o assustador é entender que a Eternidade não é um estado além, mas aquém. E, se alguém julga que esta afirmação é uma heresia, o Evangelho de João põe a vida eterna já a ser vivida a começar aqui. Não é uma ‘escatologia realizada’, mas um “por enquanto” de já e ainda não[2] (Jo.3.36;6.47,54). Aliás, nisto consiste a firmeza desta crise, isto é, deste paradoxo: Cristo É o Senhor do tempo.[3] Nele, toda a realidade ontológica converge. Nele, por Ele e para Ele é que o CORAÇÃO humano excede ao tempo. Se “tudo Ele fez formoso ao seu tempo”, quanto ao homem, “pôs Ele a eternidade no coração” (Ec.3.11).

Já pensei que a Eternidade fosse uma realidade somente no Além. Descobri-a na brevidade da flor que murcha e cai. Ela se esconde no homem idoso que se prepara para o duelo com a morte, apesar do corpo frágil, corrompido pelo tempo (IICo.4.16).[4] Não é algo que os racionais fazem ou criam; a Eternidade existe pelo que são. Sim, pelo que são e nunca pelo que serão ou foram. Se a eternidade fosse realidade por questão temporal (se fosse uma invenção humana)[5], tornaria o homem menos do que o é agora.[6] Herman Dooyeweerd, filósofo e teólogo holandês (1894-1977), concluiu que o CORAÇÃO do homem é o ponto de concentração da existência humana; o foco supratemporal de todas as funções temporais do homem, a unidade básica dos seres humanos. Como ponto de concentração, o coração transcende o tempo.[7] Consequentemente, o tempo experimentado pelo coração é significativo, pois pode lembrar a raiz da realidade criada. Seria um olhar a eternidade por antítese.

Todavia, é face à eternidade que o homem encontra o paradoxo de sua própria identidade. Para alguns, a Eternidade é carência, desejo de ser Super-Homem. Li de um que ela é um desejo, reflexo de si mesmo numa tentativa frustrada de ser Deus. Entendo que Nietzsche ri da eternidade pensada pelos cristãos.[8] Às vezes acho que ele a intitulava de covardia. Seja como for, à via de contraste, a realidade da eternidade é expressa na fraqueza de quem desdenha. Ela é perfeita demais para ser criada por uma existência menor do que ela.

Ao que parece, a Eternidade usa o Tempo para levar os homens aos limites de tudo aquilo que se é: nada! A estrutura a qual o homem descobre o que se É é verídica, o problema é a direção em que ele leva toda a descoberta deste contraste percebido pelo que se É e aquilo que deveria ser, ou deseja infinitamente ser.

Afinal, o que é o homem dentro da natureza? Nada em relação ao infinito; tudo em relação ao nada; um ponto intermediário entre tudo e nada. Infinitamente incapaz de compreender os extremos, tanto o fim das coisas como o seu princípio permanecem ocultos num segredo impenetrável, e é-lhe igualmente impossível ver o nada de onde saiu e o infinito que o envolve.[9]

Pascal expressou bem estes dois mundos dos Racionais. A ideia de tempo imposta pela sociedade, o Tempo por si, bem como a sua dessemelhança com a Eternidade, levam o homem ao sentimento de impotência. Segundo ele,

A eternidade das coisas, em si mesma ou em Deus, deve assombrar a nossa íntima duração. A imobilidade fixa e constante da natureza, em comparação com a transformação contínua que se verifica em nós, deve causar o mesmo efeito (Pensamentos).

A existência humana se assemelha à teia das aranhas. O tempo é o espaço onde a aranha constrói a sua sobrevivência, ao passo que é a própria aranha a Eternidade daquilo que a leva a construir-se. Ora, isto significa que, embora a teia seja um espetáculo à parte, o significado da beleza não está na física ou geometria da teia. O encanto, o sublime, está na aranha. Esta sequer tem a noção daquilo que faz ou da beleza que produz. Fio com fio, espaços simétricos, ponto com ponto que se fixam em bases instáveis, a aranha vive a vida sobre uma engenhosidade a qual sequer se dá conta. Costurando o estético com o biótipo, cinemático e econômico (mas nada lógico para si mesma) ela se ocupa com os insetos que ali grudarão.[10]

A estrutura humana não nos serve de base para a continuidade desta vida. Podemos ser como a aranha: chamar o tempo de eternidade e ignorar o belo da vida numa preocupação instintiva pela presa. Podemos tecer a vida sobre bases sólidas: ponto a ponto no calendário e, assim, construirmos o nosso universo dentro do tempo. Mas a eternidade não respeita o tempo nem a estrutura humana. Ela não se move; não se precipita.

A aranha é mais bela do que a teia; mais complexa do que as cadeias de aminoácidos, proteínas produzidas por ela. Todavia, a aranha e a sua teia são de um mesmo material e pertencem-se mutuamente. Se a sua teia é cinco vezes mais forte do que o aço e é produção da própria aranha, isto garante que a aranha seja mais forte do que o aço? Sua teia resiste ao vento ou a uma presa maior? Não é ousadia da aranha substituir o transcendente pelo imanente?

O paradoxo da existência não está na teia criada pela aranha; está na aranha e no mundo criado por ela. Ela é mais complexa do que aquilo que ela mesma faz. Assim é o homem: mais complexo do que o tempo (é em razão de sua ontologia que o tempo faz sentido!) e inofensivo à Eternidade (quer-lhe ser o autor, mas não tem poder para isto). Esta o confunde, como presa pesada demais para ele e a sua teia suportarem. O peso da Presa destrói tanto a engenharia da aranha como torna impotente a esta.

O fato é que só temos uma existência para vivê-la eternamente, “ […] porque tudo passa rapidamente e nós voamos” (Sl.90.10).

NOTAS:

[1] AGOSTINHO, Confissões, XI.17: “O que é, pois, o tempo? Se ninguém mo pergunta, sei o que é; mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta, não sei: no entanto, digo com segurança que sei que, se nada passasse, não existiria o tempo passado, e, se nada adviesse, não existiria o tempo futuro, e, se nada existisse, não existiria o tempo presente. De que modo existem, pois, esses dois tempos, o passado e o futuro, uma vez que, por um lado, o passado já não existe, por outro, o futuro ainda não existe? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse a passado, já não seria tempo, mas eternidade. Logo, se o presente, para ser tempo, só passa a existir porque se torna passado, como é que dizemos que existe também este, cuja causa de existir é aquela porque não existirá, ou seja, não podemos dizer com verdade que o tempo existe senão porque ele tende para o não existir?

PASCAL, B.  Pensamentos, fragmentos, III, 205: “Quando penso na pequena duração da minha vida, absorvida na eternidade anterior e na eternidade posterior, no pequeno espaço que ocupo, e mesmo que vejo, fundido na imensidade dos espaços que ignoro e que me ignoram, aterro-me e assombro-me de ver-me aqui e não alhures, pois não há razão alguma para que esteja aqui e não alhures, agora e não em outro momento. Quem me colocou nestas condições? Por ordem e obra de quem me foram designados este lugar e momento? ”

[2] THIELMAN, Frank, Teologia do Novo Testamento: uma abordagem canônica e sintética, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, pp.207, 210: “ A diferença crucial deste conceito no evangelho de João e o uso tradicional nos textos judeus e cristãos está no modo enfático pelo qual João assevera que a “vida eterna” se torna realidade no presente, antes da morte física e do “último dia”. Em 4.36, ao usar a figura da colheita utilizada pela tradição para descrever a restauração ou o juízo escatológico (Is.27.12; Am. 9.13; Jl3.13; Mt.13.30,39-42; Ap.14.15,16), Jesus disse que “aquele que colhe já recebe o seu salário e colhe fruto para a vida eterna” (grifo do autor). A força dada por João […] influencia seu panorama escatológico. Se Jesus revelou perfeitamente o caráter e a vontade de Deus, então o juízo divino não precisa esperar pela consumação de todas as coisas. Deus não tem mais nada a dizer além do que já disse por meio de Jesus e, portanto, o critério do juízo final foi deslocado para o presente. Sempre que as pessoas tenham finalmente crido na revelação de Deus em Jesus ou a tenham rejeitado, o juízo já aconteceu”.

Vide também: LADD, G. Eldon, Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Êxodus, 1997, pp.34-37,61-74;

[3] CULLMANN, O. Cristo e o tempo. Tempo e História no Cristianismo Primitivo. São Paulo: Custom, 2003.

[4]ICo.15.55; IITm.4.7.

[5] GIRARD, Rená, Deus: uma invenção?, São Paulo: É Realizações, 2011.

[6] LEWIS, C.S. A abolição do homem, apud, DOWNING, D, C.S.Lewis: o mais relutante dos convertidos, São Paulo: Vida, 2006, pp.69,70: “ Mas você pode continuar “racionalizando” para sempre: você descobrirá que se perdeu explicando a própria explicação. Você não pode continuar “enxergando através” das coisas para sempre. O aspecto principal de “enxergar através” de alguma coisa é enxergar alguma coisa através dela. É bom que uma janela seja transparente, porque a rua ou o jardim são opacos. E se você também enxergasse através do jardim? Não adianta nada “enxergar através” de fundamentais princípios. Se você enxerga através de todas as coisas, todas as coisas são transparentes. Mas o mundo completamente transparente é um mundo invisível. “Enxergar através” de todas as coisas é o mesmo que não as enxergar”.

[7] DOOYEWEERD, H.  Raízes da cultura ocidental, São Paulo: Cultura Cristã, 2015, pp.44-54, 250.

[8] NIETZSCHE, F. O anticristo, XXXIV: “O ‘reino de Deus’ é um estado do coração – não algo situado ‘acima da terra’ ou a que se chegue ‘depois da morte’ –, a hora, o tempo, a vida física e suas crises não existem em absoluto para o Mestre da Boa Nova… O reino de Deus não é algo que se aguarde, não tem um ontem, nem um “além de amanhã”, não chega ‘dentro de mil anos’ – é uma experiência em um coração, está em toda parte, não está em lugar algum”.

[9] PASCAL B.  Pensamentos, fragmentos 72, 206, pp.52-91.

[10] DOOYEWEERD, H.  Raízes da cultura ocidental, São Paulo: Cultura Cristã, 2015, pp.55-76. Dooyeweerd explica em sua filosofia que a realidade é composta por várias esferas na existência humana. Geralmente tendemos a absolutizar mais um aspecto da realidade do que outro. Todavia, nosso acesso (?) imediato à realidade se dá pela fé. A realidade é contemplada num quadro único, composto por vários aspectos modais, todavia, a reduzimos a um desses. A aranha, do texto, junta aspecto com aspecto afim de construir a sua teia: a realidade.

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