Existencialismo e o Pós-Modernismo

Posted by Jean Seifert in REFLEXÕES TEOLÓGICAS

existencialismo

Por Jean Seifert

EXISTENCIALISMO 

Sören Kierkegaard viveu uma relação intensa e conturbada com seu pai e sua família, como um tormento, uma relação dolorosa vivida sob a marca do castigo de Deus.  O seu ideal ético o impediu de se casar com Regina Olsen e também de se tornar pastor luterano.

Kierkgaard tem um pensamento essencialmente religioso pois sua filosofia existencial é a verdadeira e própria teologia experimental.

Kierkegaard delineia o ideal estético da vida do sedutor, que vive segundo a segundo, dispersando-se na multiplicidade sem autêntico empenho ético, e dissipando-se no prazer. E dessa forma de vida, que C precisamente o ideal estético, sai-se com um salto (eis o aut-aut), que leva à vida ética e, depois, à vida da fé. E, segundo Kierkegaard, é exatamente a vida da fé que constitui a forma verdadeiramente autêntica da existência finita, vista como o encontro do indivíduo com a singularidade de Deus (REALE 2005, pg 223).

Em suma, para Kierkegaard o cristianismo é a verdade “por parte de Deus” e não “por parte do homem”. Por isso, “professores” e “pastores” são unicamente canalhas: sua função era a de satisfazer a eternidade, mas eles pretendem satisfazer o tempo; são “velhacos” que consideram que “é mais cômodo adular os contemporâneos”.

Segundo Paul Strathern (1999):

Kierkegaard filosofou sobre o que significa estar vivo. Seu tema foi o indivíduo e a sua existência: o “ser existente”. Na visão dele, essa entidade puramente subjetiva está além do alcance da razão, da lógica, dos sistemas filosóficos, da teologia ou mesmo das “pretensões da psicologia”. No entanto, é a fonte de tudo isso. O resultado deste pensamento foi que filósofos, teólogos e psicólogos em algum momento repudiaram Kierkegaard. O ramo da filosofia – ou antifilosofia para muitos puristas – criado por Kierkegaard viria a ser conhecido como existencialismo.

O problema da existência – ou do “ser” – esteve no cerne do pensamento de muitos dos primeiros filósofos. Antes que Sócrates e Platão introduzissem um elemento de razão na filosofia, os filósofos se preocuparam muito com a questão do ser. Mas havia um problema primordial que provocava questões como “o que é a existência” e “qual o sentido de existir”. Foi Kierkegaard quem assumiu a tarefa de responder a essas questões.

O existencialismo nasceu no século XIX, com as idéias filosóficas de Kierkgaard. Essa tendência filosófica e literária atingiu seu auge na década de 50, no pós-guerra. A contribuição mais importante desta teoria é sua ênfase na responsabilidade do homem sobre seu destino e no seu livre-arbítrio. Porém somente quase um século após a morte de Kierkegaard o existencialismo vingou, com o aparecimento do filósofo francês Jean Paul Sartre na França, após a Segunda Guerra Mundial. Os intelectuais parisienses estavam desesperados no pós-guerra. Não havia mais nada em que acreditar. O surrealismo, que ganhou crédito intelectual ao se definir como absurdo, era agora visto como ridículo. E com a ascensão do Ditador Russo Josef Stalin, os intelectuais franceses achavam difícil até acreditar no comunismo. Então surgiu o existencialismo, que não exigia que se acreditasse em nada. Na verdade, destacava mesmo que o desespero era parte da condição humana. O existencialismo logo se espalhou e atraiu a atenção universitária. A filosofia central do existencialismo – “o problema da existência” – foi considerada um artigo típico do século XX. Tudo isso provém diretamente de Kierkegaard, nascido quase um século antes de Sartre, como descreve Strathern.

Jean-Paul Sartre foi o filósofo mais conhecido da história, enquanto viveu. Sua obra era popular entre o público em geral, mas mais difundido entre estudantes e revolucionários.

Sartre ficou muito conhecido pois se tornou representante do existencialismo após a Segunda Guerra Mundial, e, mais tarde, adotando uma postura contra a autoridade na era de Che Guevara. Embora Sartre não tenha sido o primeiro existencialista, foi o primeiro a aceitar abertamente este título.

O existencialismo nas mãos de Sartre se transformou em um movimento contra valores burgueses europeus destruídos pela Segunda Guerra, pois a classe média não representava o existencialismo, ou seja, era impossível ser burguês e existencialista.

O existencialismo é um humanismo é a mais clara exposição de Sartre ao existencialismo. Esta obra de trinta páginas foi traduzida para várias línguas e contém vários lemas quase niilista: “estamos sozinhos, sem escusas. É isso o que quero dizer quando digo que o homem está condenado a ser livre” (Sartre).

A insistência de Sartre em nossa graciosa liberdade era uma percepção puramente filosófica, que embora fosse sustentável, dificilmente era uma atitude social aceitável. Em sua obra O existencialismo é um humanismo, Sartre enfatiza que essa liberdade agora demandava uma responsabilidade social: “faça aos outros o que gostaria que fizessem a você”, “paz na terra aos homens de boa vontade” – tais palavras ocupam nossa moral até hoje.

Apesar de declarar que não era marxista, Sartre sempre tendeu para posições socialistas radicais. A medida que sua filosofia existencialista tendia para o comprometimento social, Sartre se via ainda mais identificado com sua própria filosofia, pois via o existencialismo como “um sistema parasitário que vivia a margem do conhecimento ao qual à primeira vista se opunha, mas no qual hoje procura se integrar”. E, em 1952, Sartre se tornou marxista.

Em sua obra O existencialismo é um humanismo, Sartre afirma:

O existencialismo ateu, do qual sou um representante, sustenta que, se Deus não existe, há pelo menos um ser cuja existência precede a essência – isto é, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer concepção de si. Esse ser é o homem – ou, como diz Heidegger, a realidade humana… Antes de tudo, o homem existe, descobre-se, aparece no mundo – e se define depois… O homem não é definível, porque, para começar, ele não é nada. Ele só será alguma coisa mais tarde e, então, será aquilo que fizer de si mesmo.

Mas afinal, o que é existencialismo?

Conforme a definição encontrada no dicionário Michaelis, existencialismo é “Doutrina filosófica influenciada por Sören Kierkegaard (1813-1855), centrada na ideia de que a existência precede a essência e de que o próprio homem cria sua existência em função de seus sentimentos, desejos e ações, formando-se a partir de suas escolhas”.

O existencialismo se tornou sinônimo de fatos ou pessoas que se desviassem do procedimento usual. Tudo o que infringisse as regras estabelecidas, a linha divisória entre o certo e o errado, era considerado existencialista. Algo semelhante com o movimento hippie, onde bastava a recusa de alguém em cumprir os preceitos de higiene e já via incluído como integrante do grupo.

Entende-se então que existencialismo é a doutrina filosófica que centra sua reflexão sobre a existência humana considerada em seu aspecto particular, individual e concreto, mas há os que rejeitam formalmente o termo para designar sua doutrina, preferindo, alguns deles, a expressão filosofia da existência (PENHA,2008).

O existencialismo moderno, enquanto movimento, surgiu na França há quase quarenta anos, e ainda continua em sua trajetória, apesar de não ostentar o mesmo empenho das manifestações iniciais, também não continua com a mesma intensidade de antes, sua influência ideológica.

PÓS MODERNISMO

Para compreender a pós-modernidade é preciso conhecer sua antecessora, a modernidade, pois vem surgindo como oposição a modernidade, através da contestação dos seus fundamentos.

A base do modernismo é a razão. Anteriormente a razão era utilizada para a compreensão do mundo, tendo Aristóteles como grande ícone deste pensamento, devido a trajetória da logica como ferramenta da concepção do conhecimento.

O pensamento cristão ainda utilizava a razão como método da produção de conhecimento. Com Thomas de Aquino como ícone, utilizava a razão para sistematizar a teologia, estudar a natureza ou argumentar a existência de Deus

Conforme o autor Grenz, a era moderna nasceu de uma revolução intelectual que desafiou os pressupostos da filosofia e da ciência medievais. O desenvolvimento da modernidade começou quando uma revolução semelhante desafiou o poder explicativo das categorias modernas.

Ainda segundo o autor, essa revolução intelectual que derrubou o projeto do Iluminismo começou no século XIX com alguns acontecimentos na filosofia européia. O que mudou com a modernidade foi que a razão passou de um mero instrumento do conhecimento para ser o próprio fundamento dele.

O pensamento pós-moderno difere principalmente de seu precursor, porque contraria seus pressupostos básicos. Se os filósofos modernos presumiam que havia uma realidade objetiva, que podia ser compreendida pela razão, os filósofos pós-modernos vieram com o discurso de que a razão humana não faz mais do que observações do mundo com o qual se relaciona.

O pós-modernismo ou a pós modernidade é um processo de mudanças significativas nas tendências filosóficas, sociológicas, artísticas e científicas que surgiram após a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945) e o movimento Modernista.

Diante disto, as principais características do pós-modernismo é a ausência de regras e valores, incertezas, individualismo, pluralidade, hiper-real – que é a mistura do real e do imaginário, a produção em série, a espontaneidade e a liberdade de expressão.

Contrário ao movimento moderno, racionalismo, ciência e valores burgueses, pode-se considerar que o pós-modernismo obteve uma conjunção de vários fatores e tendências que subsiste até hoje nas artes – entre elas pode-se dizer as plásticas, arquitetura e literatura – filosofia, política e no âmbito social.

Com a crítica do modo clássico de conhecimento da era moderna, a pós-modernidade abandona a relações da razão humana com a natureza das coisas. Entende-se então que pós-modernos optam pelo pluralismo e o relativismo, em que a verdade se torna “aquilo que é vantajoso crer”.

Conforme Middletone e Walsh , isto faz correlação com pós-modernismo e teologia:

O problema do ponto de vista pós-moderno é que as Escrituras, em que os cristãos afirmam basear a sua fé, constituem uma metanarrativa com pretensões universais. O cristianismo está inegavelmente enraizado numa metanarrativa que pretende contar a verdadeira história do mundo, desde a criação até o fim, da origem à consumação. (Middletone e Walsh, 1995, pag. 76).

Segundo os autores, essa afirmação faz sentido pois é baseada na observação histórica, visto que a Bíblia tem sido utilizada repetidamente para oprimir e excluir aos que são tidos como hereges ou infiéis. Nas mãos de alguns cristãos e até mesmo comunidades, essa metanarrativa tem sido utilizada como artificio para legitimizar preconceitos e perdurar a violência aos que são considerados opositores, que estão fora do proposito divido.

A pós-modernidade desafia a teologia a enxergar Deus como uma definição inconclusiva, enquanto alguns dogmas cristãos colocam Deus em um vencilho. A bagagem religiosa tem desempenhado um papel importante, pois passou a reconhecer a limitação de toda e qualquer possibilidade de apreender e de compreender Deus.

A passagem da era moderna para a era pós-moderna impõe um sério desafio à teologia no âmbito de sua nova geração, pois o teólogo não pode cair na cilada da “saudade” pelo regresso daquela modernidade iluminista que iniciou um protestantismo racional após ser confrontado, pois deve-se diferenciar a melhor maneira de viver a fé cristã no contexto pós-moderno, reconhecendo a vivencia de cada indivíduo e respeitando a pluralidade de crenças em seu contexto de existência.

O pós-modernismo têm muitas deficiências em diversas áreas. Portanto, não devemos simplesmente “acompanhar novos tempos” e abraçar acriticamente a última moda intelectual. Ao mesmo tempo, o envolvimento crítico com o pós-modernismo não pode terminar com uma rejeição simplista de todo o seu espírito. Nossas reflexões críticas devem nos levar a determinar os contornos do evangelho que falará aos corações dos indivíduos pós-modernos. Devemos nos envolver com o pós-modernismo para que possamos discernir a melhor maneira de expressar a fé cristã para a próxima geração. Nossa missão como discípulos de Cristo consiste em encarnar e expressar as boas novas eternas de salvação de mofo que a nova geração possa compreendê-las. Somente desse modo poderemos nos tornar veículos do Espírito Santo, possibilitando assim às pessoas experimentarem o mesmo encontro transformador com o Deus trino de que toda a nossa vida extrai significado” (Grenz, 1995, pág. 250).

REFERÊNCIAS

GRENZ, Stanley J. Pós-modernismo: um guia para entender a filosofia do nosso tempo. São Paulo: Vida Nova 1997.

MICHAELIS: moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1998 (Dicionários Michaelis).

MIDDLETON, J. R.  &  WALSH, B. J.  Truth is stranger than it used to be.  Downers Grove, IVP, 1995.  p.76.

Penha, João da.  O que é existencialismo. São Paulo: Editora Brasiliense, 2008.

Reale, G. Historla da filosofia, 5: do romantismo ao emplrlocriticismo – São Paulo: Paulus, 2005.

Sartre, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Acessado em 20/11/2017 as 10h40 através do site http://stoa.usp.br/alexccarneiro/files/-1/4529/sartre_exitencialismo_humanismo.pdf

Strathern, Paul. Jean-Paul Sartre em 90 minutos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1999.

Strathern, Paul. Kierkegaard em 90 minutos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1999.

 

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