Bonhoeffer: o discipulado e a cruz

Posted by Cristiano Nickel in REFLEXÕES TEOLÓGICAS

BONHOEFFER DISCIPULADO

Por Cristiano Nickel

INTRODUÇÃO

Eu fico surpreso quanto eu participo de congressos, conferências e retiros. As propagandas desses eventos nos influenciam, pois determinado especialista em alguma área participará de uma plenária ou seminário. A recompensa por participar desses eventos não é a “palavra poderosa” de um guru, mas os estandes de livrarias. E num desses estandes de um congresso de jovens, me deparei com uma obra escondida atrás de outros livros – “Discipulado” de Dietrich Bonhoeffer. Faltei algumas plenárias desse congresso, porque o livro arrebatou a minha mente. Nas primeiras páginas, eu já começava a chorar e clamar por arrependimento pelo meu cristianismo barato e por uma vida debaixo da graça barata.   

SOBRE BONHOEFFER

Dietrich Bonhoeffer nasceu em Brelau, Alemanha, em 1906. Foi um pastor luterano e teólogo que participou da resistência alemã antinazista. Bonhoeffer rompeu com a igreja luterana que apoiara os ideais nazistas, assim como  o Papa Pio XII o fez. Diante dessa resistência, Bonhoeffer foi um dos membros fundadores da Igreja Confessante. Com a ascenção do Nazismo, o seminário teológico onde Bonhoffer atuou como professor e reitor, foi fechado pela polícia nazista.

Bonhoeffer se engajou no movimento de resistência contra Hitler. Após muitas viagens pela Europa, ele foi preso em 5 abril de 1943 e executado em 9 de abril de 1945, semanas antes do término do conflito mundial na Europa. Apesar do pouco tempo de vida, Dietrich Bonhoeffer deixou um legado teológico precioso e uma fé viva e coerente com seus ensinos, onde combateu o que ele chamou de “graça barata” – essa graça que oferece perdão sem arrependimento, comunhão sem confissão e principalmente o discipulado sem a cruz.

A graça barata é inimiga mortal de nossa igreja […] Pois a graça é como resto de estoque, perdão barateado, graça que mãos levianas gastam sem vacilo nem limite, é graça sem preço, sem custo[…] A graça barata é o perdão dos pecados como algo já dado por certo; é o amor de Deus como conceito cristão de Deus. Quem aceita o amor de Deus já está perdoado dos seus pecados. Na igreja que prega a graça barata, o mundo encontra cobertura barata de seus pecados, dos quais não se arrepende e, na verdade, não quer ser libertar. A graça barata, em vez de justificar o pecador, justifica o pecado. Resolve tudo sozinha, nada precisa mudar e tudo pode permanecer como antes. O mundo continua mundo e nós continuamos pecadores, na vida piedosa. A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento do pecado, é o batismo sem disciplina, é a comunhão sem confissão de pecados, é absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é graça sem discipulado, é a graça sem a cruz, é a graça sem Jesus Cristo encarnado.[1] (  BONHOEFFER, 2016, p.20)

Essa é a graça que atrai os consumidores e pessoas que se autovalorizam. Não há conversão, mas convencimento diante de um “deus” que pode dar todas coisas ou, que não fará nada diante de seus filhos que apresentam diante do Trono Santo o espetáculo diário de seus pecados e rebeldia. Somos tentados por essa graça barata. Acessamos ela por conveniências, ou quando por medo de ir para o inferno. Recorremos a ela, e nosso coração recebe uma dose emocional dessa graça que nos diz: “tá tudo certo, siga em frente”.

CRER E OBEDECER

Bonhoeffer discorre sobre a assertiva de que “só o que cré é obediente, e so obediente é o que crê” (Ibid p.38). O teólogo se refere precisamente ao texto de Gálatas 5.6, sobre a “fé que opera pelo amor”.

O chamado de Cristo suscita obediência, promove uma fé viva. A fé morta não gera consequências. A fé viva é operante por que gera a consequência. A fé viva é o domínio do reino de Cristo, pelo qual o ser humano arranca o olho que o faz tropeçar, é o chamado de Jesus Cristo, pelo qual o discípulo deixa suas redes para trás e o segue (Mt 14.30).

Ed René Kivitz acertadamente expõe o conceito errôneo de entender a fé. Achamos que fé é a capacidade de mover a mão de Deus ao nosso favor. Deus é um bonachão que espera as obras de seus filhos para assim mover a mão e abençoar. Temos que nos esforçar, ser “bonzinho” para que o papai possa dar a mesada pela obediência. No entanto, a fé é uma resposta à Cristo, onde nos movemos nele! A fé viva é uma resposta ao discipulado. Onde me movo, vivo e morro em Cristo. A fé viva nos coloca no caminho da cruz! Eu creio em Cristo Jesus, eu vivo Cristo Jesus, e morro em Cristo Jesus. Para Bonhoeffer, obedecer significa sacrificar-se, ir para a cruz, negar a si mesmo.

A TRINDADE CONTEMPORÂNEA

Por que a pregação expositiva e pietista não leva a transformação de multidão em discípulos de Cristo? Por que é mais eficiente campanhas de prosperidade do que a EBD? Esses questionamentos são respondidos pelo teólogo Eugene Peterson em que ele denomina da “nova trindade contemporânea” que substitui a Trindade de Deus: meus santos sentimentos, meus santos desejos e as minhas santas necessidades. Essa trindade assola a hermenêutica contemporânea. As interpretações bíblicas passam por essa trindade humanista. Somos muito mais tendentes a obedecer a trindade pós-moderna do que o chamado de Cristo para o discipulado.

Para o discípulo crer implica em obedecer e obedecer exige o sacrifício. “Bonhoeffer acreditava que o discipulado radical era necessário na experiência contemporânea de um mundo amadurecido”[2]. Muitos liberais entendem que Bonhoeffer abriu um caminho para o secularismo na igreja. O que é uma falácia, pois o mesmo entendia que o cristão deve ser responsável pela história do mundo, pois a igreja só é autêntica quando existe para a humanidade[3]. A igreja é uma contracultura onde “não devemos ser como caniços agitados pelo vento, dobrando-se diante das rajadas do mundo, mas tão inabaláveis quanto pedras em uma correnteza”.[4]

A CRUZ E O DISCÍPULO

O chamado para o discípulo implica em obediência que leva a cruz. A cruz não é o meio, mas o fim para o discípulo. A contracultura da cruz destrói fortalezas do narcisismo antropocêntrico. Pois em Lucas 9.23, Jesus ordena aos seus discípulos dizendo “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me”.

Um grande professor de Língua Portuguesa, Arzírio Cardoso, publicou no Facebook, um poema de grande reflexão.

de um deus de estigmas

um deus marcado

a um deus de in$ígnia$

deus-mercado[5]

De estigma (cruz) a insígnias. A cruz pós-moderna (ou líquida) soa mais como mercadoria, ou bloqueio de demônios do que a verdadeiro objetivo: ser os destino do discípulo. A cruz pós-moderna revela o deus-mercado, ou um deus líquido e adaptável. A cruz pós-moderna, crucifica o evangelho, a graça preciosa, crucifica o espírito.

A cruz (não a pós-moderna, mas a dos evangelhos) é o objeto inseparável do discípulo de Cristo. Pois é “necessário que Cristo sofra e seja rejeitado”[6]. A natureza do discípulo é o sofrimento e a rejeição. Como se ele fosse crucificado.

O maior dilema do discípulo da cruz é o dilema de se entregar ou se preservar a si mesmo. Esse dilema corrompe a natureza da igreja, pois a mesma sofre pelas incertezas, pelas ansiedades e não pelas consequências de seus atos. A igreja sofre com os programas de crescimento estratégico, ou se o mês teve mais fiéis “convertidos” para alcançar o superávit nos dízimos e ofertas. A igreja sofre pela antecipação e não pela consequência, pelo resultado de viver o verdadeiro evangelho.

Chamo esse sofrimento de sofrimento ilegítimo. Sofremos pela nossa salvação e não para que se cumpra o nosso destino como discípulos de Cristo. Estamos vivendo e participando de retiros de “reciclagem” espiritual para verificar se realmente somos salvos do que viver realmente o nosso destino: ser salvo uma vez para cumprir o nosso destino – revelar a Glória de Deus. E como fazemos isso? Indo para a cruz! Pois a obra de Cristo não é para nos preservar, mas para sermos capacitados, ou “predestinados” para sermos oferecidos para a cruz, para a morte. Cristo me capacita e me dá a segurança para eu apanhar na cara e oferecer a minha outra face.

A cruz é perturbadora. Ela violenta a nossa perspectiva de vida, de realizações, de sonhos. Mas a única forma de Deus ser glorificado é negando a mim mesmo, e essa negação significa ir para a cruz.

Em uma palestra sobre missão integral, Ariovaldo Ramos diz que a igreja não precisa se converter a cruz – ou a igreja está na cruz ou não é igreja. Simples assim. Bonhoeffer conclui que “a cruz não é tragédia e num infortúnio; é o sofrimento da união com Cristo”[7].

O DISCÍPULO E A MULTIDÃO

Ou a igreja está na cruz ou não é igreja. Ou o discípulo vai para a cruz ou não é discípulo, é simplesmente parte da multidão. Temos a tendência errônea de considerar todos os nossos membros (inclusive os empresários) de discípulos de Cristo. Quando vemos os evangelhos, percebemos que multidão e discípulos faziam parte do dia a dia de Jesus

Em Lucas 9, após as multidão se saciar com o milagre dos pães e peixes. Jesus vai ter com os discípulos e diz:

Quem diz a multidão que eu sou? E, respondendo eles, disseram: João o Batista; outros, Elias, e outros que um dos antigos profetas ressuscitou. E disse-lhes: E vós, quem dizeis que eu sou? E, respondendo Pedro, disse: O Cristo de Deus. (Lucas 9.18-20)

Jesus fica calado diante da resposta dos discípulos em relação a multidão. A multidão é absolutamente normal em nossos dias. Prega-se para a multidões serem “cabeça e não calda”. As multidões estão presente em nossos grupos familiares e cultos, por exemplo. A diferença é muito simples entre a multidão e os discípulos: quem não escolheu a cruz e não negou a si mesmo, está com a multidão. Outro teste é na hora da prova, na hora da história, na hora da crise. A crise separa discípulos de multidão. A multidão se esconde, fica quieta, assiste. A multidão vai se preservar. A multidão vai para a igreja aqui e acolá. Para a multidão o que interessa é o pão que perece e não o Pão Vivo. A multidão se omite, o discípulo reage: vai para a cruz. Essa diferença ocorre há dois mil anos de história.

CONCLUSÃO

Em João 20.21 Jesus diz “E Jesus lhes: “A paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, Eu também vos envio.” Assim como Pai enviou o filho para ser imolado, sacrificado e morto na cruz, implica que nós, discípulos (se não, multidão), sejamos enviado para o mundo: dar a nossa vida pelo próximo. Ou continuemos nas multidões, nos preservando.

NOTAS

[1] BONHOFFER, Dietrich. Discipulado. São Paulo: Mundo Cristão, 2016

[2] GRENZ, Stanley J.; OLSON, Roger E. Teologia do Século XX. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2013, p. 180.

[3] Ibid., p.183.

[4] STOTT, John W. R. O discípulo radical. Viçosa, MG: Ultimato, 2011, p. 21.

[5] Esse poema foi retirado da página no Facebook de Arzírio Cardoso. https://www.facebook.com/arzirio.cardoso?fref=ts (Acesso em 24 de abril de 2016)

[6] BONHOFFER, Dietrich. Discipulado. São Paulo: Mundo Cristão, 2016, p.60

[7] Ibid., p. 63.

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