As origens do Movimento Anabatista na Suíça

Posted by Matheus Negri in REFLEXÕES TEOLÓGICAS

anabatista

Por Matheus Negri

Estamos comemorando o mês dos 500 anos da Reforma Protestante, e para celebrar essa data gostaria de apresentar um pouco de uma parte da Reforma que muitas vezes é negligenciado, mas que possui um profundo impacto no movimento evangélico contemporâneo – a Reforma Radical.

O movimento da Reforma Radical, também chamada de Anabatista, tem seu começo a partir de dissidentes da reforma proposta em Zurique por Ulrico Zwinglio (1484 – 1531). No período da reforma o sul da Alemanha e a Suíça não possuíam uma cidade centro como Wittenberg era para o norte da Europa. O nome referencial na Suíça era o de Zwinglio o qual, segundo M. Dreher, propôs uma reforma diferente da de Lutero, adaptando a teologia ao campo político, social e filosófico.[1]

Para C. Dyck foi a aliança entre a teologia e o campo político que fomentou a insatisfação dos discípulos de Zwinglio com a sua reforma. Pode-se entender essa aliança a partir do ano de 1522 quando Zwinglio renunciou o seu sacerdócio católico e o Conselho dos Duzentos[2] o reintegrou ao seu cargo de pregador. Essas duas ações “foram de importância revolucionária, visto que representam uma declaração de independência do controle da hierarquia romana e um apoderamento do direito de nomear ministros pelas autoridades políticas locais”.[3]

Desta forma o Conselho começou a legislar sobre a reforma em Zurique. A partir das pregações de Zwinglio ficou evidente que a cobrança dos juros (dízimos) não era lícita, porém o Conselho decidiu que eles deveriam ser pagos à cidade e aos mosteiros. O reformador de Zurique também lançou críticas à missa romana, mas o Conselho decidiu mantê-la, como também as túnicas do clero e a liturgia.[4]

Um grupo de discípulos de Zwinglio estava insatisfeito com os rumos que a reforma estava tomando, visto que o Conselho da cidade era quem realmente ditava a velocidade que as mudanças deveriam acontecer. Segundo Dyck, pouco se sabe sobre as movimentações deste grupo entre dezembro de 1523 até o outono de 1524, somente dois acontecimentos possuem registros: a ideia de uma mudança básica na organização política da cidade e uma convicção contra a prática do batismo infantil.[5]

Murray entende que a demora de Zwinglio e sua aliança com o Conselho teve por motivo o seu compromisso com a uma reforma geral para toda a cidade, assim não poderia pensar uma outra forma a não ser política.[6] Pois entendia se que uma igreja livre do Estado geraria anarquia e não ordem.

No começo do ano de 1523, Guilherme Reublin (1480 – 1559), juntamente com Hans Brotli (1494 – 1528), estava pregando nas vilas ao redor de Zurique contra o batismo infantil. Houve uma boa recepção por parte dos camponeses as suas pregações, pois os mesmos deviam pagar o imposto urbano e o Conselho detinha o poder sobre suas paróquias.

Segundo Dyck o primeiro sinal de um grupo autoconsciente de pessoas que rejeitavam a liderança de Zwinglio é encontrado em três cartas escritas por Conrado Grebel (1498 – 1526) e seus amigos em setembro de 1524. As cartas foram destinadas a Martinho Lutero (1483 – 1546), André Carlstadt (1486 – 1541) e Tomas Muntzer (1489 – 1525), não se sabe se eles receberam a carta, e somente a de Muntzer foi preservada.[7]

J. Martínez resume a carta em oito pontos:

1) A importância de pregar a palavra de Deus. Ele concorda com Zwinglio na rejeição de padrões fixos de canto litúrgico nos cultos. 2) uma observância não litúrgica da Ceia do Senhor. Deveriam usar apenas as palavras bíblicas e o pão e o vinho comuns. […] 3) uma igreja fiel, disciplinada, de obediência radical à Palavra. Deve praticar orações e jejuns e seguir a regra de Mateus 18. 4) um ministério sustentado por suas próprias congregações, não por fundos de outra origem, como o Estado. 5) Uma casa de reuniões simples, sem esculturas e quadros, onde os cristãos se encontrem para ouvir a palavra de Deus. […] 6) Uma igreja agindo sob o princípio do amor sofredor, semelhante ao de Cristo. […] 7) Um batismo de água que seja rico em simbolismo: em Cristo nossos pecados são lavados. Em Cristo somos transformados interiormente. No ato do batismo, mostramos publicamente nossa fé no Senhor Jesus. Cristo. Indicamos que agora morremos para o pecado e caminhamos em novidade de vida. […] 8) A condição de salvos desfrutada pelas crianças, baseada na Bíblia, sem necessidade de fé ou do batismo. A água do batismo é somente para os crentes.[8]

Assim a carta defendia um batismo de adultos como uma manifestação externa de um ato interno, a conversão. A água não poderia curar, salvar e nem purificar literalmente o pecador. Uma mudança radical do batismo defendido pelos grandes reformadores.

Em dezembro de 1524 houve muita agitação em torno do batismo infantil, o que levou o Conselho a decidir que as crianças deveriam ser batizadas e os pais resistentes teriam suas famílias expulsas de Zurique. E em 18 de janeiro de 1525 decidiu-se usar a força para perseguir as minorias religiosas.[9]

Diante dessa decisão do Conselho o grupo de discípulos deveria tomar uma posição entre a submissão ou o exílio. E na noite de 21 de janeiro de 1525 se encontraram na casa de Felix Mantz (1498 – 1527) para juntos tomarem uma decisão. O que aconteceu naquela noite está registrado numa carta escrita em Klettgrau, Suíça, em 1530 contando a origem do novo movimento.[10] Consta na carta que nessa noite estavam reunidos George Blaurock (1491 – 1529), Conrado Grebel, Felix Mantz e outras pessoas. Blaurock pediu para Grebel o batizar, e todos os presentes foram batizados. Assim em 21 de Janeiro de 1525 torna-se oficialmente o início do Anabatismo[11] como uma igreja visível. “Aqui se realizou o primeiro ato da restituição da igreja dos crentes, da igreja livre, tal como está concebido no Novo Testamento, independente do Estado”.[12]

A carta também relata a severa perseguição imposta ao grupo nascente, com as mortes dos que estavam na reunião. Foram afogados, enforcados e queimados. Foram os cantões católicos romanos que primeiro executaram os anabatistas, mas por serem protestantes. O primeiro mártir foi Bolt Eberle em maio de 1525. Foi Felix Mantz o primeiro a ser morto por protestantes, em 5 de janeiro de 1527 foi afogado no rio Limmat, em Zurique.[13]

Com a grande perseguição aos fiéis e especialmente aos líderes do movimento, que rapidamente começaram a morrer, e com a grande recepção por parte dos camponeses houve a necessidade de formalizar a fé em um documento. Em fevereiro de 1527 na cidade de Schleitheim houve uma reunião e nela fora escrito os sete artigos do Acordo de Irmãos, conhecido também por A Confissão de Fé de Schleitheim (1527).[14] Segundo a tradição Miguel Slatter (1495 – 1527), ex-monge beneditino de Freiburg, foi o autor de suas conclusões, e acredita-se que George Blaurock e Guilherme Reubin estavam presentes.[15] U. Siemens propõe o seguinte resumo para os artigos:

1) Serão batizados apenas os que andarem na ressurreição, ou seja, os que mostrarem vida transformada pelo poder de Deus. 2) os membros que retornarem para uma vida de pecado e se negarem a voltar a um discipulado fiel serão excluídos do corpo da igreja. 3) os que desejarem participar da Ceia do Senhor devem se unir na fé e no batismo de crentes. 4) os cristãos devem viver uma vida santa, ou seja, à parte dos pecados da sociedade ao seu redor. 5) a congregação será servida por pastores. Seus deveres consistem em pregar a Palavra de Deus, presidir às celebrações da Ceia do Senhor e ser supervisores, de modo geral, dos membros. 6) os discípulos devem, em toda e qualquer circunstância, assumir a atitude do Salvador sofredor. Nunca usarão a força ou a violência, nem participarão de guerra alguma. 7) Em obediência estrita as doutrinas de Cristo, os membros nunca pronunciarão juramento de qualquer espécie, nem mesmo juramentos civis. Simplesmente deverão afirmar a verdade.[16]

O movimento logo se espalhou pela Europa, segundo R. García houvera três variações principais do anabatismo: a Suíça, a Austríaca e sul da Alemanha e a Holandesa. Os movimentos na Alemanha central, Itália e Inglaterra foram considerados de menor expressão e expansão.[17] Em 1530, Jhan Volkertsz levou o anabatismo para a Holanda. Ele havia tido contato com Melchior Hoffman[18] em Emden.[19]

Notas:

[1] DREHER, 2013, p. 263.

[2] O Conselho dos Duzentos era o corpo governador da cidade de Zurique. A maioria das cidades do sul da Alemanha e da Suíça eram Estados independentes, com sua próprias leis, comércio e interesses religiosos. Em 1315 a Suíça conquista sua independência da Áustria e em 1648 se torna um país autônomo e reconhecido internacionalmente, veja DREHER, 2013, p. 263.

[3] DYCK, 1992, p. 34.

[4] DYCK, 1992, p. 37.

[5] DYCK, 1992, p. 39.

[6] MURRAY, 2011, p. 137.

[7] DYCK, 1992, p. 41.

[8] MARÍNEZ, 1997, p. 76.

[9] DYCK, 1992, p. 44.

[10] GHENDT, 1910, p. 515 – 516.

[11] O termo anabatista quer dizer rebatismo, como o grupo só reconhecia o batismo de adultos eles começaram a batizar pessoas que já foram batizadas na infância.

[12] PLETT, 1979, p. 31.

[13] FINGER, 2004, p. 23.

[14] FINGER, 2004, p. 24.

[15] DYCK, 1992, p. 52.

[16] SIEMENS, 2010, p. 231 – 232.

[17] GARCÍA, 1992, p. 28.

[18] Líder talentoso, mas sem preparação acadêmica que em 1530 se torna anabatista. Seu gosto por profecias o levou para ideias extremas. Entre elas estava uma ênfase radical de que Estrasburgo seria a Jerusalém espiritual e que ele era o Elias escolhido para proclamar o evento vindouro para o povo. Foi preso e faleceu dez anos mais tarde na cadeia. DYCK, 1992, p. 91-93.

[19] RATZLOFF, 1972, p. 4.

Referências bibliográficas: 

DREHER, Martin. História do povo de Jesus: uma leitura latino-americana. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2013.

DYCK, Cornelius. Uma introdução à história Menonita. Campinas: Editora Cristã Unida, 1992.

FINGER, Thomas. A contemporary Anabaptist theology: biblical, historical, constructive. Illinois: InterVarsity Press, 2004.

GARCÍA, Raúl. Porque sou cristão evangélico anabatista. Campinas: Associação Evangélica Menonita, 1992.

GEORGE, Timothy. Teologia dos reformadores. São Paulo: Edições Vida Nova, 1993.

HORST, Irvin. Introdução à Confissão. Rio Verde: Publicadora Menonita, 2007.

ISRAEL, Jonathan. The Dutch Republic: its rise, greatness and fall (1477-1806). Oxford: Clarendon Press, 1995.

LEDERACH, Paul. Uma terceira opção. Campinas: Editora Cristã Unida, 1993.

MARTÍNEZ, Juan. História e teologia da reforma anabatista: um desafio atual. Campinas: Editora Cristã Unida, 1997.

MURRAY, Stuart. Anabautismo al desnudo: convicciones básicas de uma fé radical. Harrisonburg: Harold Press, 2011.

PLETT, Rudolf. Presencia Menonita em El Paraguay. Asunción: Instituto Bíblico Asunción, 1979.

SIMENS, Udo. Quem somos?1930-2010. A saga Menonita: rompendo a barreira da cultura. Curitiba: Editora Esperança, 2010.

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