Aba, Pai: a plenitude dos tempos

Posted by Flávio Santos in REFLEXÕES TEOLÓGICAS

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Por Flávio Santos

“O Filho de Deus tornou-se homem para possibilitar que os homens se tornem filhos de Deus” C.S. Lewis

A plenitude dos tempos

Filhos e herdeiros são as duas palavras usadas por Paulo para descrever o que somos para Deus. Esse ser para Deus foi conquistado por meio de uma decisão do amor eterno do Pai ao enviar o Filho para morrer por nós na cruz. E o Pai e o Filho enviaram o Espírito Santo para, dentro de nós, gerar a bênção da filiação e herança. Jonathan Edwards, falando sobre o texto, diz que os santos, através da união com Cristo, participam da relação filial dEle com o Pai e são herdeiros com Ele da felicidade no gozo do Pai, como está indicado pelo apóstolo Paulo em Gálatas 4.4-7:

“Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. Assim que já não és mais servo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo.” (Gálatas 4:4-7)

A missão do Filho

Quem é o Filho? Essa é uma pergunta que várias pessoas já fizeram e para a qual buscaram as mais diversas respostas, nos mais diversos lugares. Mas nenhum deles chegou à resposta verdadeira que somente a simplicidade do Evangelho pode dar. O Filho tem vários nomes:

  • Jesus. Em Hebraico é Joshua (Josué), que significa “Salvador” ou o “Senhor salva”. Não é um título, mas é o nome pessoal de Jesus (Mt 1.21).
  • Cristo. É um título de Jesus, é o nome oficial do Messias. É o mais importante de todos os seus nomes.Significa “O Ungido” (Mt 16.16).
  • Filho do Homem. Era a maneira como Jesus se reconhecia. Esse título significa que Jesus sabia que era o ungido para a missão de salvar o mundo dos seus pecados (Mt 16.27,28).
  • Filho de Deus. Significa que é o representante de Deus na terra, divino por seu nascimento sobrenatural. Como Filho de Deus, era um com o Pai (Mc 1.1).
  • Senhor. É o título respeitoso pelo qual devemos tratar Cristo, porque Ele é Deus e autoridade sobre o discípulo. É um título de honra dado a Cristo (Mt 8.2; Lc 2.11).

O Filho é uma pessoa com duas naturezas: a humana e a divina. Cristo é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. Jesus é o divino Filho de Deus, Eterno, Senhor da Glória e plenamente divino (Jo 1.1-3; Tg 2.1; Cl 1.19). Por isso alcançou a salvação para o ser humano por meio de Sua morte na Cruz. Jesus nasceu de uma virgem pela obra do Espírito Santo. Isso prova a sua humanidade (Mt 1.18,20). Jesus sofreu e foi tentado como os homens, mas sem cometer nenhum pecado (Hb 2.18). Como homem, pagou a pena do pecado e alcançou a salvação para nós, como sacerdote (Hb 2.14-18).

Todos os homens são pecadores e carecem da graça da salvação (Rm 3.23). Pecar é errar o alvo, é escorregar, cair do caminho proposto por Deus. O pecado causa separação entre nós e Deus, impedindo o relacionamento e a bênção de Deus (Is 59.2). Cristo se humilhou para perdoar os nossos pecados e restaurar o nosso relacionamento com Deus. Restaurar o homem à posição de filho e à imagem de Deus como Pai.

Na plenitude dos tempos, ou seja, no tempo designado por Deus, nem antes e muito menos depois da hora certa, na agenda soberana, Deus, na linguagem de Paulo, enviou o Filho para uma missão: Redimir e Adotar pessoas. Essas pessoas se tornariam filhas e herdeiras de Deus e, nessa nova posição, receberiam o Espírito do Filho que, no coração, clamaria “Aba, Pai”. O fato de o Filho ter nascido de mulher mostra que Ele, além de ser divino, é humano. A humanidade de Jesus lança luz ao caminho que o homem deve trilhar para a intimidade com Deus. Em vários momentos do seu ministério, Jesus orou ao Pai. Esteve sempre na presença de Deus. Orou para tomar decisões. Orou para Deus intervir com milagres. Orou por si mesmo. Orou pelos seus discípulos. Orou por todos que se tornariam filhos de Deus.

O filho de Deus (o cristão) não participa somente da morte de Jesus na Cruz do Calvário e do poder de Sua ressurreição dentre os mortos; tem parte também no relacionamento que Jesus tinha com o Pai. A teologia da nossa participação nos sofrimentos de Jesus e na glória de Sua ressurreição não pode passar ao largo da participação na Sua comunhão com o Pai. No corpo do Filho, temos livre acesso ao Aba. O autor da Epístola aos Hebreus disse que Jesus abriu um novo e vivo caminho de acesso à presença de Deus pelo véu, isto é, a sua carne, na Cruz, o seu sangue derramado (Hebreus 10. 19, 20).

Paulo poderia ter-se referido a Jesus com qualquer outro título já usado em sua teologia, mas prefere falar da missão de Jesus como Filho. Isso lança luz sobre a natureza e identidade de Jesus na missão. Assim, Jesus, como filho, tem a missão de levar pessoas à identidade de filhos. Filhos que, com a presença do Espírito do Filho, podem viver a sua identidade no relacionamento de oração. O Aba, na missão do Filho, pode ser interpelado pelos filhos. Na posição de filhos estão incluídas todas as raças, tribos e nações da terra. Não é exclusividade de ninguém chamar Deus de Aba. O caminho foi aberto para todos chamarem Deus de Pai. “Aba, Pai” é um convite para toda língua confessar o Pai.

A Redenção

Paulo diz que Deus enviou o seu Filho para que nós pudéssemos nos tornar filhos do Pai. Ele diz que nos tornamos filhos por meio da redenção. Redenção é palavra usada para falar sobre o ato de compra de um escravo no mercado. É o pagamento do resgate para comprar algo. No contexto, Paulo ensina que éramos escravos da lei e Jesus, em sua morte na cruz, nos resgatou. A Lei a que Paulo se refere aqui é a de Moisés, aquela que veio mostrar quem somos: pecadores; e o que não podemos: cumpri-la; e quem a pode cumprir: Cristo. Ou seja, a Lei lançou duas coisas sobre nós: a maldição e as cerimônias impossíveis de serem cumpridas.

Foi para isso que Deus enviou Jesus. Para nos comprar da Lei e nos dar o direito de sermos filhos e clamarmos ao “Aba, Pai”. “Paulo disse quem veio – o Filho de Deus; disse quando ele veio e como ele veio. Agora, explica por que veio: “para resgatar os que estavam sob a lei” (GI 4:5). Resgatar é o mesmo termo usado por Paulo anteriormente (GI 3:13); significa “libertar mediante o pagamento de um preço”. Um homem poderia comprar um escravo em qualquer cidade romana (havia cerca de sessenta milhões de escravos no império romano) para mantê-lo como escravo. Jesus veio para nos libertar. Assim, uma volta à lei era o mesmo que desfazer a obra de Cristo na cruz. Ele não nos comprou para nos manter escravos, mas para nos tornar filhos! Sob a lei, os judeus não passavam de “filhos pequenos”, mas sob a graça, o cristão é um filho adulto de Deus”.[1]

Enquanto formos escravos, amarrados à religiosidade e às impossibilidades cerimoniais, a via de acesso a Deus será sempre impossível. Não porque não haja presença de Deus, favor de Deus, providência de Deus e, do lado de cá, uma espécie de certeza de que Deus é o meu Deus. A impossibilidade diz respeito ao relacionamento. Ao nosso encontro com Deus por Deus mesmo, ou seja, viver na presença do Pai pelo Pai. A escravatura na perspectiva da Lei não proporciona relacionamento, somente troca, barganha. A nossa decisão diante disso é nos lançar ao resgate da graça e viver a liberdade dos filhos do Pai.

A Adoção

Ao nos comprar do mercado de escravos, Jesus nos tornou filhos por meio da adoção. A Bíblia de estudo Genebra diz que “no mundo de Paulo, a adoção se fazia comumente de jovens adultos, homens, de bom caráter, que se tornavam herdeiros e mantinham o nome da família de pessoas ricas que, de outro modo, não teriam filhos. Paulo, contudo, proclama a adoção graciosa de Deus, que adota indivíduos de mau caráter, para se tornarem ‘herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo’ (Rm 8.17)”. Tudo que Deus tem para seu Filho Jesus, por meio da adoção, tem para os filhos adotivos.

A adoção é uma das bênçãos da justificação. A justiça de Cristo é imputada ao pecador e, no tribunal de Deus, é declarado justo. Com o perdão dos pecados, somos aceitos/adotados na família de Deus. Adotados para um novo caminho para andar em direção ao relacionamento de segurança com o Pai. A bênção da adoção aponta para obra do Espírito Santo nos filhos e herdeiros. A palavra grega é “huiothesia”, que significa o procedimento legal de adoção de uma pessoa como filho. Nesse processo, o Espírito Santo, habitando em nós, interpela a Deus Pai, trazendo a segurança de que precisamos no relacionamento filial com o Pai.

A adoção é feita com amor por parte dos pais. Isso também pode ser visto na adoção dos filhos por parte do Pai. A diferença é que os pais naturais não adotam os filhos em ninguém. Já a nossa adoção é feita em Alguém: no Filho de Deus. E não somente no Filho, mas com o mesmo amor que Deus tem por Jesus. “Experimentamos nossa adoção como filho como a coisa mais confiável do mundo. Tão certo como Deus ama seu Filho unigênito, seu amor também vale para nós, os filhos nascidos depois”.[2]

A orfandade não é para o cristão. Precisamos parar de viver como se ainda fôssemos órfãos, abandonados na miséria, sem perspectivas de felicidade, escondidos no fracasso espiritual. Jesus disse que não nos deixaria órfãos (João 14.8). Ele enviou o seu Espírito ao nosso coração para que clamemos ao Pai. Clame e desfrute de tudo o que o Aba tem para você.

A Missão do Espírito Santo

O Espírito Santo não é uma força impessoal ou uma energia de Deus. O Espírito Santo – no hebraico: ruah (fôlego/espírito), e no grego: pneuma (sopro/espírito) – mostra que Ele não é impessoal ou uma energia criada. É o fôlego e o sopro de Deus que dá vida aos homens. O Espírito Santo é uma das pessoas da Trindade. Ele é o Deus Espírito Santo (At 5.3,4). O batismo deve ser feito também em Seu nome (Mt 29.18). A bênção apostólica inclui o Espírito Santo junto ao Pai e ao Filho (2Co 13.14). O Espírito Santo possui atributos divinos: onisciência (1Co 2.10,11) e onipresença (Sl 139.7,8). O Espírito Santo é Deus entre os homens. Não O vemos, mas entendemos e sentimos as suas ações. Para os cristãos, o Espírito Santo é uma pessoa com quem o discípulo pode se relacionar. O Espírito Santo tem características pessoais e a Palavra de Deus mostra que isso é um convite à intimidade e ao relacionamento com Ele. Assim, um dos ministérios do Espírito Santo, para aqueles que se relacionam com Ele, é produzir clamor no coração dos crentes.

O clamor do que se posicionou como filho é um clamor produzido pelo Espírito no coração. Aqui estão envolvidas duas pessoas na oração: O Espírito de Cristo e o coração do homem. O Espírito, conhecendo a vontade de Deus, se une ao coração que conhece a vontade do homem na busca pela presença do Pai. Essa oração produzida pelo Espírito no coração do Filho em direção ao Pai é a que o Pai quer ouvir, pois é a verdadeira oração. A oração que procede do coração ministrado pelo Espírito.

O homem em sua necessidade mais profunda, conhecendo os seus dramas, é ministrado pelo Espírito de Cristo e, por isso, se rende ao Pai. Sabendo que o Pai pode fazer todas as coisas: Afastar ou não o cálice dos dramas da existência.

A Identidade de Filho

Assim… Após a Missão do Filho. A redenção e adoção. O Envio do Espírito. E o Clamor ao Aba. Não somos mais servos, mas filhos. “O filho tem a mesma natureza do pai; o servo não. O filho tem um pai; o servo tem um senhor. O filho obedece por amor; o servo obedece por medo. O filho rico; o servo é pobre. O filho tem futuro; o servo não tem qualquer perspectiva”.[3]

“Não somos mais servos” é um convite ao abandono dos rudimentos do mundo (Gálatas 4.3). Esses rudimentos do cosmos são a religiosidade judaica estritamente cumpridora da Lei e a licenciosidade gentílica e suas práticas espúrias. “Não somos mais servos” é o estabelecimento de um novo tempo. Já não somos menores, sob o cuidado de tutores e curadores. Agora somos filhos e herdeiros de tudo. O tempo que é chegado na plenitude dos tempos. É para o filho viver com intensidade o relacionamento com o Pai e desfrutar de tudo que o Filho conquistou na Cruz, como direito nosso e nossa herança.

[1] Warren W. Wiresbe, Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento: Volume 1 Romanos. Santo André – SP, Geográfica Editora, 2006, p.919.

[2] Adolf Pohl, Comentário Esperança: Carta aos gálatas. Curitiba, Editora Evangélica Esperança, 1999, p.98.

[3] Warren W. Wiresbe, Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento: Volume 1 Romanos. Santo André – SP, Geográfica Editora, 2006, p.920.

 

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