Uma exposição do Argumento Ontológico

Posted by Djesniel Krause in APOLOGÉTICA

ontologico

Por Djesniel Krause

O argumento ontológico foi proposto primeiramente no século XI por Anselmo de Cantuária, que de acordo com Lawson “foi o pensador mais original que a igreja já viu desde Agostinho”[1] e a partir de então “continuou assumindo uma grande variedade de formas, sendo defendido por Duns Scotus, Descartes, Espinosa, Leibniz e outros”[2].

O teólogo brasileiro Franklin Ferreira afirma que o início das formulações para o argumento ontológico para a existência de Deus se deu em 1076 quando Anselmo “cantava no ofício vespertino com os demais monges em Bec […]. Estes monges lhe pediram que fornecesse uma explicação dos ensinos básicos da fé cristã, e ele estava contemplando a existência de Deus”[3].

A partir destas meditações sobre a existência de Deus, Anselmo escreveu duas obras, uma delas ainda em 1076, intitulada Monológio e outra em 1078, intitulada Proslógio.

O argumento ontológico para a existência de Deus foi mais bem desenvolvido em sua segunda obra, Proslógio.

De acordo com Craig e Moreland, dois dos principais apologistas contemporâneos, “a linha comum dos argumentos ontológicos é que eles tentam deduzir a existência de Deus a partir do próprio conceito de Deus”[4].

Norman Geisler e Paul Feinberg dão uma introdução bastante clara ao argumento: “ao meditar sobre Deus, Anselmo concluiu que Deus, por definição, deve ser o Ser mais perfeito possível ou concebível. Pois se alguém pudesse conceber de qualquer coisa mais perfeita, logo, aquela seria Deus”[5].

Abaixo, o argumento conforme proposto pelo próprio Anselmo:

Certamente que algo tal que nada maior pode ser pensado não pode existir apenas no entendimento. Pois se existe apenas no entendimento, pode-se conceber que exista também na realidade, o que seria mais grandioso.Portanto, se o que é algo tal que nada maior pode ser pensado existir apenas no entendimento, então a própria coisa mais grandiosa que é tal que nada maior pode ser pensado é coisa tal que algo maior pode ser pensado. Contudo, isso é obviamente impossível. Logo, não há dúvida de que algo tal que nada maior pode ser pensado existe tanto no entendimento como na realidade (grifo nosso)[6].

Concorda-se que o argumento pode parecer confuso, ao menos para alguém com pouco envolvimento com a filosofia, conforme Alvin Plantinga, filósofo de Notre Dame, afirma, “apesar de certamente parecer, à primeira vista, que o argumento não pode ser sólido, é profundamente difícil dizer o que há exatamente de errado nele”[7].

Até mesmo o biólogo Richard Dawkins, citando Bertrand Russel confessa que “é mais fácil sentir a convicção de que [o argumento ontológico] deve ser falacioso que localizar onde exatamente está a falácia”[8].

Para auxiliar na compreensão do argumento, Alvin Plantinga[9], já mencionado anteriormente, o esquematizou de forma bastante didática conforme segue:

1. Deus existe no entendimento, mas não na realidade;

2. A existência na realidade é mais grandiosa do que a existência apenas no entendimento;

3. A existência de Deus na realidade é concebível;

4. Se Deus existir na realidade, então seria mais grandioso do que é;

5. É concebível que exista um ser mais grandioso do que Deus

6. É concebível que exista um ser mais grandioso do que o ser mais grandioso tal que nada maior pode ser concebido.

Dado o claro absurdo a que se chega na conclusão (6), que é autocontraditória, pode-se afirmar que:

7. É falso que Deus exista no entendimento, mas não na realidade.

Embora que ao longo da história algumas críticas foram dirigidas ao argumento de Anselmo, como as de Gaulino, Hume, Kant e o próprio Dawkins o considere um “argumento infantil”, cuja linguagem apropriada é “a linguagem do parquinho”[10], há “um número de filósofos recentes de destaque, tais como Norman Malcolm, Charles Hartshorne e Alvin Plantinga que não apenas levam o argumento a sério, como o consideram bastante sensato”[11].

Alguns críticos podem afirmar que a ideia de que a possibilidade de imaginar algo como Deus implica em Sua existência real trata-se na verdade de um absurdo, uma vez que o ser humano pode imaginar diversos objetos ou seres, como talvez um monstro do espaguete voador, mas mesmo assim tais objetos ou seres permanecem inexistentes no mundo real.

Ocorre, porém que uma analise atenta do argumento deixa claro que “que o argumento ontológico funciona em apenas um caso, que é a existência de Deus”[12], pois Anselmo não trata da existência de seres ou objetos finitos, e sim o ser mais grandioso tal que nada maior pode ser concebido.

Como qualquer coisa que exista no mundo real é maior do que algo existente apenas na ideia, segue que o ser mais grandioso tal que nada maior pode ser concebido deve, necessariamente, existir no mundo real, caso contrario, não apenas um, mas uma infinidade de seres maiores que o ser mais grandioso tal que nada maior pode ser concebido, poderiam ser concebidas e isto sim, seria um absurdo lógico.

NOTAS

[1] LAWSON, Steven J. Pilares da graça: 100 – 1564 D.C. São José dos Campos: Editora Fiel, Coleção longa linha de vultos piedosos Vol.2, 2013, p. 375.

[2] MORELAND, J.P; CRAIG, William Lane. Filosofia e cosmovisão cristã. São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 604.

[3] FERREIRA, Franklin. Servos de Deus: espiritualidade e teologia na história da igreja. São José dos Campos: Editora Fiel, 2014, p. 119.

[4] MORELAND; CRAIG, 2005, p. 604.

[5] GEISLER, Norman L; FEINBERG, Paul D. Introdução à filosofia: uma perspectiva cristã. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1996, p. 231.

[6] ANSELMO. apud PLANTINGA, Alvin. Deus, a liberdade e o mal. São Paulo: Vida Nova, 2012, p. 110-111.

[7] PLANTINGA, 2012, p. 110.

[8] DAWKINS, Richard. Deus, um delírio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 92.

[9] PLANTINGA, 2012, p. 111-112.

[10] DAWKINS, 2007, p. 92.

[11] MORELAND; CRAIG, 2005, p. 604.

[12] SPROUL, R.C. Defendendo sua fé: uma introdução à apologética. Rio de Janeiro: CPAD, 2007, p. 84.

REFERÊNCIAS

DAWKINS, Richard. Deus, um delírio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

FERREIRA, Franklin. Servos de Deus: espiritualidade e teologia na história da igreja. São José dos Campos: Editora Fiel, 2014.

GEISLER, Norman L; FEINBERG, Paul D. Introdução à filosofia: uma perspectiva cristã. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1996.

LAWSON, Steven J. Pilares da graça: 100 – 1564 D.C. São José dos Campos: Editora Fiel, Coleção longa linha de vultos piedosos Vol.2, 2013.

MORELAND, J.P; CRAIG, William Lane. Filosofia e cosmovisão cristã. São Paulo: Vida Nova, 2005.

PLANTINGA, Alvin. Deus, a liberdade e o mal. São Paulo: Vida Nova, 2012.

SPROUL, R.C. Defendendo sua fé: uma introdução à apologética. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 You can leave a response, or trackback.


Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Widgets powered by AB-WebLog.com.