O cristão e a submissão às autoridades em Rm 13.1-7

Posted by Matheus Negri in Cosmovisão

SUBMISSÃO AUTORIDADES

Por Matheus Negri

Introdução

A situação política nacional não está das melhores. Há uma crise generalizada em todas as instituições, uma tentativa de polarização entre destros e canhotos, muitas passeatas e talvez o seu feed de notícias do Facebook fique como o meu: parecendo uma página de notícias sobre política.

Então, você decide se engajar na luta pelos direitos e justiça do povo brasileiro, coloca sua camisa canarinho e vai para a rua. Mas quando você está saindo de casa sua mãe cita a Bíblia e joga um balde de água fria sobre seu ativismo político, “Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas” (Rm 13.1). E agora, posso participar das manifestações? Tenho o direito de criticar a corrupção? A Lava-Jato é de Deus? Talvez essas dúvidas passem pela sua cabeça.

A minha proposta é analisarmos Romanos 13.1-7 para entender qual o ensino do apóstolo Paulo sobre a relação do cristão com as autoridades civis e dela tirar conclusões para nosso contexto brasileiro.

Primeiramente precisamos entender que até a ascensão e queda do nazismo não havia dúvida deste texto como fundamento da doutrina cristã do Estado. De Agostinho à Calvino, de Calvino até Spurgeon todos entendiam que a liderança civil era dada, ou imposta por Deus, ao ser humano.

A relação era bem simples o estadista deveria punir o mal e recompensar o

bem. Os cidadãos cristãos deveriam obedecer, pois Deus havia instituía o governo civil como parte de sua criação. Mas e se o governo for malvado, se começar a matar as pessoas, se transformar o país num caos. Será que isso é determinado por Deus?

O NT fala de muitos modos sobre o Estado e Rm 13 não é o centro, a perspectiva central é da tentação de Jesus (Lc 4.6). Nela lemos que todos os reinos da terra foram entregues a satanás, que ele possui pleno domínio sobre a vida e organização dos poderes terrenos. E em Apocalipse 13 encontramos uma bela imagem desse governo fora dos moldes do evangelho. Um governo totalmente entregue a satanás, conduzido e preso pelos enganos da besta e de seus seguidores.

Romanos 13.1-7 o texto em seu contexto

Vou apresentar em tópicos o contexto de Romanos 13:

– 1-5: imerecida vocação dos gentios por Deus.

– 6-8: imerecida renovação do corpo por Deus.

– 9-11: imerecida preocupação de Deus por seu povo.

– 13.8-11: espera por uma salvação concreta na história.

– 14: preocupação com o irmão fraco.

– 15: coleta de recursos espirituais e materiais para apoio mútuo. A misericórdia de Deus como base para superar sofrimento e como referência no agir cristão.

Capítulos 12 e 13 formam uma só unidade. Começando com o não conformismo motivado pelas misericórdias de Deus, que produz uma nova qualidade de relacionamentos dentro da comunidade cristã incluindo os inimigos e o sofrimento. O conceito do amor reaparece em Rm 13.8-10, sendo que o amor serviçal e o sofrimento são chaves para a compreensão do texto.

A submissão aos poderes terrenos de Rm 13.1 é motivada e explicada pela esperança de Rm 13.11-14, de forma que a vingança e a ira estão no mesmo patamar e devem ser deixadas a cargo de Deus, visto que Ele pode usar os meios que desejar para a vingança.

Ações dos governos não são atestadas por Deus

Como já falei acima, usualmente interpreta-se que Deus institui os governos. Como se os governos existissem por revelação de Deus. E temos duas versões clássicas sobre o assunto. A positivista, que geralmente participa dos círculos luteranos, nela entende-se que todo governo é de Deus e por ele instituído. Assim, tudo o que o governo fizer é permitido por Deus. Porém, o texto de Romanos não faz nenhum julgamento moral sobre a existência de um governo, sobre César e suas políticas.

A segunda é a normativa, participante da tradição calvinista. Nessa concepção o que é ordenado por Deus não é o governo específico, mas o princípio de como um governo deve agir. Se o governo corresponder a certas normativas específicas poderá reivindicar a sua instituição divina. Caso não exerça seu papel bíblico, esse governo se torna digno de uma rebelião justa.

Agora temos um problema de ordem prática, quem pode dizer quão bom ou mal é um governo? Em que momento o governo se torna desqualificado? Precisamos levar em conta que o cristianismo e a teologia cristã são fragmentados e muitas vezes excludentes. Usualmente procura-se comprar Romanos 13 com Apocalipse 13 para responder essa questão, mas nenhum dos textos exige aprovação religiosa do Estado, ambos exigem subordinação aos poderes, sejam eles quais forem.

Então, sobre o que o texto de Rm 13 está falando? Ele está se referindo à situação presente dos cristãos romanos como representativa para os cristãos de todo o Império, e não a natureza de toda a realidade política; ele também não prescreve uma ordem social ideal. O texto diz que Deus ordena os governos de acordo com seu propósito na história. E não que ele aprova moralmente o que eles fazem.

Assim, para os cristãos judeus em Roma o objetivo do texto é afastá-los de qualquer noção de revolução ou insubordinação, pois viviam sob o antissemitismo e arbitrariedade do regime imperial romano.

Considerações finais

Dessa rápida análise podemos entender que os governos humanos estão sob o reino das trevas. Que os cristãos estão sob as normativas dos governos humanos, porém o Reino de Deus é quem dita às regras de sua conduta. No Reino de Deus o amor é central, a vingança e a luta armada (ira) são atribuições divinas e não dever dos discípulos.

Aplicando ao nosso contexto, podemos participar de passeatas, movimentos, vestir a canarinho e ir para a avenida. Só não podemos esquecer que a vingança pertence a Deus, nós devemos lutar por justiça a partir da revelação bíblica – a justiça do Reino de Deus!

 

Sugestões para leitura

ELLUL, Jacques. Política de Deus, política do homem. São Paulo: Fonte Editorial, 2006.

FERREIRA, Franklin. Contra a idolatria do Estado: o papel do cristão na política. São Paulo: Vida Nova, 2016.

YODER, John Howard. A política de Jesus. São Leopoldo: Sinodal, 1988.

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