Modernidade líquida e cristianismo

Posted by Cristiano Nickel in Cosmovisão

cristianismo liquido

Por Cristiano Nickel

Um professor me disse que a Arte é a antena da sociedade: capta o que o que o ser humano sente, pensa e faz. A Arte é um produto de produção humana mas também do pensamento e da cosmovisão de uma sociedade. Quando estou lecionando para os meus alunos sobre a Arte Urbana, apresento as pranchas e slides de um grande artista britânico cujo codinome é Bansky, e fico surpreso pela “captação” da sociedade contemporânea. Os trabalhos deste artista são encontrados nas mais diversas cidades britânicas como Bristol e Londres. Mas não quero dar aula de Arte, apenas introduzir o pensamento sobre a condição do homem pós-moderno e como esse pensamento afeta a fé cristã.

O estêncil do Banksy nos leva a refletir o que é o homem pós-moderno: um homem individualista que busca a sobrevivência no consumismo desenfreado. É um homem que busca ajuda e que está insatisfeito com a mercadoria adquirida. Em consonância com Banksy, o sociólogo Zygmunt Bauman aponta esse aspecto consumista na pós-modernidade, cujo o termo se traduz em modernidade líquida:

Os consumidores podem estar correndo atrás de sensações – táteis, visuais ou olfativas – agradáveis, ou atrás de delícias do paladar prometidas pelos objetos brilhantes expostos nas prateleiras dos supermercados, ou atrás das sensações mais profundas e reconfortantes prometidas por um conselheiro especializado (BAUMAN, 2001, p. 104-105)

A partir dessa afirmação de Bauman poderemos apresentar de maneira introdutória um dos aspectos da modernidade líquida e suas consequências na vida cristã: o consumismo.

MODERNIDADE LÍQUIDA: CONCEITOS E GENERALIDADES

A pós-modernidade é definida como uma era de indefinições e fragmentações na sociedade atual. Para se compreender os efeitos colaterais e ambivalentes na religião cristã, é necessário entender o significado do termo “modernidade líquida”, segundo o sociólogo Zygmunt Bauman.

Bauman (2001, p.8), apresenta um diagnóstico preciso quando define os tempos atuais como tempos líquidos por não “manter sua forma com facilidade”, não fixam o espaço e não prendem o tempo. Os líquidos preenchem o espaço apenas por um momento.

Os fluídos se movem facilmente. Eles “fluem”, “escorrem”, “esvaem-se’, “respingam”, “transbordam”, “vazam”, “inundam”, “borrifam”, “pingam”; são “filtrados”, “destilados”; diferentemente dos sólidos, não são facilmente contidos – contornam certos obstáculos, dissolvem outros e invadem ou inundam seu caminho. (BAUMAN, 2001, p.8)

Para Cugini (2008, p.161-161) essa metáfora de liquidez, se refere às crises ideológicas que orientavam culturalmente uma sociedade, tais como a religião, a história, filosofia, e a política. Nos tempos líquidos “o que está acontecendo hoje é, por assim dizer, uma redistribuição e realocação dos ‘poderes de derretimento’ da modernidade” (BAUMAN, 2001, p.13).

Na perspectiva de McGrath (2005, p.150) a pós-modernidade é “algo relacionada a uma sensibilidade cultural livre de absolutos, de certezas e fundamentos”. Em consonância com McGrath e Bauman, Azevedo (2011, p.120) descreve a pós-modernidade como a ruptura das metanarrativas1 que constituem a totalidade, possibilitando a liquefação das grandes instituições: “o sujeito que pensava o mundo como totalidade e que nele intervinha já não existe mais, pois o homem pós-moderno torna-se fragmentado e sem projetos em termos da totalidade”.

COMUNIDADE VIRTUAL: RELIGIÃO ELETRONICAMENTE MEDIADA

A sociedade de produção passou a ser uma sociedade de consumo, ao mesmo tempo que a sociedade em comunidade passou a ser uma sociedade em networks (BAUMAN, 2005, p.37). Os relacionamentos tornaram-se fragmentados pelo motivo de sua durabilidade – a sociedade em comunidade precisava prestar contar e os relacionamentos eram desfeitos presencial e fisicamente; no entanto a sociedade em networks possibilita a conexão e a desconexão sem prestar contas.

Nesta nova sociedade em rede, possibilitou a vivência eletronicamente mediada, conhecidas como redes sociais. As identidades mediadas pelas redes sociais são para usar e exibir, não para usar e manter. (BAUMAN, 2005, p. 96). As redes sociais são totalidades virtuais que possibilitam entrar e sair facilmente num relacionamento na mesma velocidade da conexão com a internet. Na mesma medida que desfaço um relacionamento no Facebook, eu aceito dezenas de amizades na semana assomando seiscentos “amigos”.

No campo da religião, percebemos as influências das redes sociais. Eu me torno um “pseudo-evangelista” quando coloco os meus pensamentos reformados ou versículos bíblicos. Não preciso enfrentar cara a cara o indivíduo para mostrar o quão hipócrita sou na minha vida cristã e, para inibir minha hipocrisia eu posto um texto dos reformadores para me mostrar um cristão eficaz que sou.

Bauman sinaliza o problema atual dos relacionamentos pois perdemos “a capacidade de estabelecer interações espontâneas com pessoas reais.” (BAUMAN, 2004, p.31). Nery e Vasconcellos apontam que a religião cristão tornou-se o “iReligion” [sic], apontando as influências tecnológicas na práxis cristã:

[…] uma espécie de religião que cabe no bolso do seu praticante, não depender de uma instituição superior, de uma denominação e nem mesmo de uma prática em comunidade, pois é figurada de acordo com as preferências e necessidades do indivíduo. O sermão pode ser acessado no Youtube, a escola dominical em algum website com assuntos teológicos, o louvor está dentro de um arquivo MP3, e a comunhão com os outros crentes se dá por meio de alguma rede social.

Os relacionamentos eletronicamente mediados possibilitam ao consumidor da fé maneiras individualistas de buscar o sagrado e permitem múltiplas possibilidades e maneiras de buscar o que preenche as necessidades existenciais, possibilitando positivamente ou negativamente a informação e o conhecimento individualizado da fé cristã. No entanto a fé cristã é professada de forma mais eficaz através da comunhão em uma comunidade de pessoas físicas, afirma Ferreira e Myatt. (2007, p.970)

COMUNIDADE GUARDA-ROUPA: NEOPENCOSTALISMO E IDEOLOGIA REFORMADA

A sociedade de consumo proporcionou “comunidades guarda-roupa” como opção para inibir ou anestesiar problemas individuais. As denominações neopentecostais permitem ao indivíduo um sentimento de pertencimento duradouro como um espetáculo ou uma rede de conexão entre o fiel e seu pastor. Após o culto, os fiéis são desconectados até o próximo culto. Não há sinal claro de uma comunidade de comunhão) e nem de uma comunidade de serviço como um sacerdócio de amigos que são algumas das marcas autênticas de uma comunidade cristã, afirma Ferreira e Myatt (2007, p.970-980).

Nery e Vasconcellos apontam que diversas denominações religiosas estão se tornando religiões de mercado que “procuram convencer os possíveis fieis a afiliar-se a elas da mesma forma que as grandes empresas conquistam seus clientes” (NERY E VASCONCELLOS, 2014, p.129).

Para Lypovetsky (2007, p.131-132) a religião não se opõe ao avanço consumista. As noções de pecados mortais, o rigorismo, e a culpa foram amenizadas. O autor observa que a religião fundada numa salvação escatológica agora se transformou em uma religião do hedonismo e realização individual.

Na sociedade de hiperconsumo, mesmo a espiritualidade é comprada e vendida. Se é verdade que a reativação pós-moderna do religioso exprime certo desencanto com o materialismo da vida cotidiana, o certo é que o fenômeno é cada vez menos exterior à lógica mercantil. Eis que a espiritualidade se tornou mercado de massa, produto a ser comercializado, setor a ser gerido e promovido. O que constituía uma barreira a explosão da mercadoria metamorfoseou-se em alavanca de seu alargamento. (LYPOVETSKY, 2007, p.132)

No campo de pesquisas das igrejas latino-americanas, especialmente o movimento neopentecostal em diversas igrejas, Silveira Campos apresenta três características do sucesso dessas igrejas. Essas igrejas vivenciam o zeitgeist pós-moderno: a igreja como teatro, templo e mercado.

A. Igreja é um teatro.

Na visão Silveira Campos (1999, p. 360-362) a igreja é um teatro, pois o pastor-ator (e não mais o pastor-doutor) inicia o espetáculo da fé com gestos, entonação de vozes e entrevistas com espírito demoníacos. O culto se torna um espetáculo de entretenimento e hedonismo sem perder a racionalidade dos fatos através de sensacionalismo espiritual, cura, libertação e o despertar do individualismo.

Por outro lado, percebemos muitas igrejas ortodoxas adotando uma visão teatral em sua conduta pós-moderna. Percebe-se pastores com uma teatralidade de pastores reformados nas mídias: John Piper ou Paul Washer. A pregação cristocêntrica torna-se “spurgeoncentrica” ou “wesleycentrica” com gestos “pipercêntricos”.

B. A igreja é um templo.

Segundo Silveira Campos (1999, p.361) a visão moderna de templo é um conceito helenístico como “morada dos deuses” um espaço enérgico tangível para a busca experimental do Espírito Santo. O templo é a casa de deus onde as pessoas chegam e recebem a benção por estar presente. Silveira Campos aprofunda sua ótica sobre as igrejas neopentecostais atribuindo a figura do templo que irradia um “fluído vital” pelas ondas televisivas e radiofônicas e materializa em objetos encostados (fotos, copo de água) nas rádios e televisões para receber a oração forte do pastor.

Por outro lado, percebe-se que nossas igrejas ortodoxas permitem que os “fluídos vitais” venham de uma pregação de Martyn Lloyd-Jones ou de Jonathan Edwards. Muitos ortodoxos afirmam que a igreja precisa voltar à teologia do púlpito gigante de madeira. Muitos ortodoxos clamam a Calvino e Lutero para que dos tempos da reforma irradiem uma unção reformada para os tempos atuais.

C. A igreja é um mercado.

Silveira Campos (1999, p.361) define os membros como clientes que buscam nas prateleiras de opções (culto da libertação, prosperidade, terapias do amor) refinados produtos definidos pelo marketing televisivo e persuasivo do pastor-ator-vendedor.

Por outro lado há diversos congressos, fóruns e debates sobre as assertivas ortodoxas e reformadas. O público reformado é crescente, justificando as influências da modernidade líquida, principalmente quanto apresentam suas bibliotecas reformadas.

CONCLUSÃO

Amorese (1998, p.135) diz que a cultura de mercado é incompatível com a cultura da graça cristã, levando ao cristão desenvolver relações de natureza comercial, pois na “cultura de mercado você não agradece: paga”. Não há gratidão mas obrigação, pois “as relações são do tipo fornecedor/consumidor”, mesmo que seja entre irmãos, ovelha/pastor, pai/filho, mãe/filha etc. Na visão de Amorese há deturpação do conceito de Graça como favor imerecido, pois “a cultura de mercado diz que não recebemos tudo o que merecíamos” (AMORESE, 1998, p.135).

O elo entre o individualismo e a sociedade de consumo é a cultura do desejo, consequência do homem que “desalojou Deus” preenchendo o vazio por infinitos deuses que atualmente se constituem de mercadorias fornecidas nas prateleiras dos supermercados e das igrejas que fornecem uma religião a la carte.

Diante dessa realidade é essencial a proclamação do evangelho que apresenta de forma confrontadora e desafiadora a cultura pós-moderna. O homem é egocêntrico, emancipado e alienado do Criador, sujeito à escravidão da idolatria que permite o mesmo beber das fontes da Modernidade Líquida. Exemplos dessa fonte é consumismo, os relacionamentos fragmentados, as comunidades guarda-chuvas. Mas qual é a fonte que o pós-moderno permite beber para nunca mais ter sede? Essa resposta está no Evangelho de João, onde Jesus diz:

“Quem beber desta água terá sede outra vez, mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Pelo contrário, a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna” (João 4.13-14)

A cosmovisão da modernidade líquida atinge o pensamento neopentescostal mas também atinge a teologia ortodoxa. Concluo com Bauman apontando o problema do fundamentalismo religioso.

O fundamentalismo religioso, sugeriu Kepel, tem “uma singular capacidade de revelar os males da sociedade”. Até que ponto? […] Seja qual foi a qualidade das respostas que ele fornece, as perguntas a que responde são genuínas. O problema não é como desprezar a gravidade das perguntas, mas como encontrar respostas livres dos genes totalitários. (BAUMAN, 1998, 230)

É certo que o ateísmo em Bauman é evidente em suas afirmações. Mas não estaria ele certo quanto à Teologia? Pois tal ciência possui capacidade de revelar os problemas da sociedade, mas consegue apresentar respostas emancipadas das afirmações totalitárias como as Declarações de Cambridge: Sola Scriptura, Solus Christus, Sola Gratia, Soli Deo Gloria? É certo que tais afirmações respondem às questões contemporâneas, mas como apresenta-las ao mundo líquido moderno?

Me sinto como aquele homem representado por Banksy na introdução deste artigo: reformado, antigo e pré-histórico carregando uma bandeja de produtos de consumo para o nossa sobrevivência pós-moderna

REFERÊNCIAS

AMORESE, Rubem Martins. Icabode; da mente de Cristo à consciência moderna. Viçosa: Ultimato, 1998

BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

______. Identidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

______. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

______. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998

FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007

LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

McGRATH, Alister E., Teologia sistemática, histórica e filosófica: uma introdução a teologia cristã. São Paulo: Shedd Publicações, 2005.

NERY, Alberto Domeniconi; VASCONCELLOS, Esdras Guerreio. Individualização e fragmentação: efeitos da pós-modernidade no cristianismo contemporâneo. In: Revista Ciências da Religião – história e sociedade. São Paulo, v.12, n.2, p. 118-132, dez. 2014. Disponível em: <www.editorarevistas.mackenzie.br/index.php/cr/article/view/6100/5218>. Acesso em: 27/12/2016

CAMPOS, Leonildo Silveira. Teatro, templo e mercado: uma análise da organização, rituais, marketing e eficácia comunicativa de um empreendimento neo-pentecostal – Igreja Universal do Reino de Deus. Tese de Doutorado, São Bernardo do Campo, Imes,1996.

 

 

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