Do antropocentrismo narcísico às feridas narcísicas

Posted by Cristiano Nickel in Cosmovisão

NARCISO - TEOLOGIA

Por Cristiano Nickel

1. INTRODUÇÃO

Estamos numa jornada sobre o mundo líquido. Estamos navegando na cosmovisão pós-moderna diagnosticada pelo sociólogo Zygmunt Bauman. Desta vez iremos mergulhar profundamente sobre o início da fonte da Modernidade Líquida: o Renascimento.

Imagine um brado de vitória: “Renascimento! Adeus à era de trevas e de caos científico e cultural! Renascimento! Voltemos aos clássicos! Voltemos à cultura grego-romana! É necessário nascer de novo! O que Platão, Aristóteles, Epicuro tem a nos dizer? Voltemos aos clássicos! Afugentemo-nos das trevas medievais e seu teocentrismo fanático!”

Parece que este brado renascentista é semelhante aos brados por uma reforma em nossas igrejas brasileiras. Não são as 95 teses de Lutero colocadas nas portas de Wittenberg, contra as indulgências. É uma reforma que fica apenas na Torre de Marfim e nos fóruns sobre Missão Integral que em sua pauta denunciam o mal herdado de Kenneth Hagin – A Teologia da Prosperidade.

É aplausível e digno de atenção ao sentimento de reforma que tem instalado em nosso meio. Tenho recebido em meu gabinete muitos jovens confusos com a fé barata. Jovens mais jovens que eu, que falam com o brilho nos olhos: “Eu li um sermão do Spurgeon e caí em choro por entender o significado da cruz!”. No entanto há um perigo em tudo isso: o narcisismo que perpetua séculos até os tempos atuais

Uma das obras significativas de Caravaggio, foi Narciso[1] (1597) – retrato mitológico do belo jovem Narciso. A Teogonia de Hesíodo (séc XVIII a.C) e Ovídio (séc IV a.C) nos contam que Narciso era um jovem de extrema beleza que despertava a cobiça das ninfas e donzelas, pois o mesmo preferia viver sozinho. Ele despreza todas as musas e ninfas, pelo motivo de que ninguém mereceria seu amor. Certo dia Narciso descansa à sombra de uma árvore em um bosque, e a ninfa Eco se apaixonou por ele. No entanto o orgulhoso jovem desprezou a ninfa. As ninfas se reuniram e jogaram uma maldição que se resume em um termo popular, “o feitiço virou contra o feiticeiro”. As ninfas amaldiçoaram Narciso para que o mesmo amasse com a mesma intensidade, sem poder possuir a pessoa amada. O deus Nêmesis, ouviu a maldição das ninfas e o atendeu. Narciso foi até uma fonte de águas cristalinas e viu a sua própria imagem refletida e apaixonou-se com sua visão, sem saber que era ele. Narciso tentava apanhar a sua própria imagem, mas não conseguia. Exausto, o belo jovem deitou numa relva e seu corpo desapareceu. Naquele lugar, surgiu uma flor cujo nome é Narciso.

O mito de Narciso nos leva a uma reflexão do homem pós-moderno que definhou-se nos últimos cinco séculos.

2. INDIVIDUALIZAÇÃO NARCÍSICA

A individualização narcísica do ser humano se inicia nos tempos do Renascimento e Humanismo do Séc. XV e XVI. O homem que antes obedecia a um sistema religioso e vislumbrava a eternidade, agora vislumbra a sua autonomia, liberdade e senso ético do momento. O homem renascentista olha para o presente com a perspectiva materialista de conforto imediato (FERACINE, 2011, p.21). O indivíduo passou a estar no centro do Universo e das preocupações, onde tudo é feito à medida do Homem, para a sua própria valorização. Pico Della Mirandola afirma que Deus colocou o homem no centro do mundo, e que lhe deu a liberdade de “descer às formas degradadas de vida ou alcançar as formais mais elevadas que são divinas. (PICO DELLA MIRANDOLA, 1486, p.57). O homem torna-se capaz de escolher, decidir e valorizar-se.

Erasmo de Rotterdam diagnosticou o problema do individualismo no Renascimento, quando se referiu a busca pela felicidade do homem pelas questões consistir a felicidade do homem diante da realidade das coisas, quando essa realidade depende da opinião que dela se tem” (ERASMO DE ROTTERDAM, 2012, p.65). Erasmo observa que no homem de seu tempo “há tanta obscuridade, tanta diversidade nas coisas humanas, que nada se pode saber com clareza”.

No entanto, as bênçãos do Renascimento como a curiosidade científica e o espírito crítico sob a agenda da experiência, nos séculos seguinte tornou-se maldição sob as “três feridas narcísicas” diagnosticas por Freud (1970, p171-174).

Daólio define claramente essas feridas narcísica. A primeira é conhecida como “golpe cosmológico” com Copérnico no século XVI, quando o homem perde a proeminência do centro do universo e passa a ser um indivíduo num pequeno planeta muito menor que o Sol. Em seguida veio o “golpe biológico”, através das pesquisas do evolucionista Charles Darwin, em que a arrogância do homem sucumbiu à ideia que o mesmo não é diferente dos animais. Enfim, Daólio cita o “golpe freudiano” que acaba com a ideia do homem pensar em si como um ser intelectualmente superior, não passando de uma ilusão pois é dominado pelo seu instinto subconsciente. (DAÓLIO, 2006, p.13-15). Além destes “golpes” enfrentados pelo homem, atualmente, vive-se um “colapso da crença de que há um fim do caminho em que andamos, um τελος (telos) alcançável” de um final feliz” (BAUMAN, 2001, p.41).

Diante destas crises, a individualização do homem permeia os tempos atuais como “uma fatalidade e, não uma escolha” (BAUMAN, 2001, p.47). A individualização é o status quo da agenda pós-moderna, onde as múltiplas possibilidades de escolhas “transformam a identidade humana de um dado em uma tarefa” (BAUMAN, 2001 p. 44). Para Fragoso (2011, p.110) “a modernidade entrou numa fase de privatização e individualização que desvinculou os poderes de derretimentos dos sólidos”. Os indivíduos não possuem padrões de referências que permitem construir sua vida e se estabelecer no mundo, logo devem lutar livremente por sua própria conta. Para Lipovetsky (2007, p.11), vive-se numa “civilização do desejo” onde o “Homo consumericus [sic] esforça-se mais ou menos conscientemente em dar uma resposta tangível, ainda que superficial, à eterna pergunta: quem sou eu?”.

3. PRESSUPOSTOS TEOLÓGICOS SOBRE O INVIDUALISMO

Os alicerces do indivíduo se baseiam em três tipos de relacionamentos: primeiro com o Criador, pois é a sua imago Dei; segundo entre si, pois a raça humana é plural desde o princípio; e terceiro, para com as coisas criadas na terra (STOTT, 2011, p.43)

Estes alicerces foram abalados e corrompidos após a Queda. Ramachandra (2001, p. 91) expõe que após a Queda a humanidade passou a ser manipulada por coisas manipuláveis (natureza, metanarrativas, antropocentrismo).

Quando o homem e a mulher quiseram se tornar deuses, em vez de com gratidão aceitarem sua singular dignidade como imagem do único Deus – eles perceberam, um ao outro, como sendo uma ameaça para a sua autonomia e como um objeto a ser manipulado num mundo de coisas manipuláveis.

A essência e paixão do ser humano é experimentar a presença de Deus e habitar em Deus, pois nada mais pode satisfazê-lo, mas como a maioria das pessoas não entende essa necessidade de Deus, procuram preencher, sem conseguir, o vazio interior com “coisas efêmeras” (TOZER, 2012, p.18).

Erickson (1997, p. 238) aponta o pecado como o “desalojar Deus” e colocar qualquer outra coisa no “lugar supremo que pertence a Deus”. Este “vazio de Deus” exacerba os desejos naturais do ser humano de modo que ser tornam uma fonte de potencial para o pecado. É o que Kant (2006, p. 37) chama de peccatum in potentia, termo latino que significa “pecado em potência”. Erickson (1997, p. 242) interpreta o texto de 1 Jo 2.16, destacando o desejo natural humano em três grandes áreas: o desejo de desfrutar coisas, o desejo de obter coisas e o desejo de fazer coisas. Ele afirma que os desejos foram plantados por Deus na criação do homem, mas quando o desejo de desfrutar coisas, se torna algo primordial e consumista o homem comete, p. ex., pecados de glutonaria e imoralidade sexual que degeneram nas concupiscência da carne” (1 João 2.16).

Erickson (1997, p. 242) aponta que na “organização de Deus há lugar para a obtenção de posse”. No texto de Gênesis 1.28, é nítido o mandamento de domínio. Mas quando esse desejo de obter, ou consumir, se torna prioridade para o homem, ele se degenera na “concupiscência dos olhos” (1 Jo 2.16).

Por fim, em relação ao desejo de fazer coisas, Erickson (1997, p. 242) afirma que Deus espera da humanidade o desejo da realização de algo bom para si próprio e para o próximo, mas quando este desejo se torna dominante resultado na exploração do próximo em favor de si mesmo, ele se degenera “na ‘soberba da vida’”

No consumismo atual, Bauman (2001, p. 96) diz que “o spiritus movens da atividade consumista não é mais o conjunto mensurável de necessidades articuladas, mas o desejo”. Ele conclui que o desejo é a “vontade de consumir” que após o “surgimento dos cartões de crédito, agora não precisamos esperar para satisfazer nossos desejos”. (BAUMAN, 2004, p. 23, 27). É perceptível que Bauman relaciona a cultura da modernidade líquida como a cultura do desejo que desperta o imediatismo e consumo descontrolado. Na percepção teológica, o fruto do desejo descontrolado é a idolatria nos espaços não mais preenchidos por Deus. De forma ontológica, as generalidades da vida na modernidade líquida são o afastamento e impedimento da busca e relacionamento para com o Deus Criador, devido ao preenchimento da vida com os ídolos da modernidade líquida. Quando se bebe das fontes da modernidade líquida, a sede torna-se insaciável e desenfreada na busca de mercadorias físicas e espirituais.

Este desejo desenfreado de consumo material ou metafísico são, de acordo com Erickson (1997, p. 254), os efeitos do pecado. Para Erickson o pecado tem o “poder de escravização”. A liberdade desenfreada pela busca de experiências ou mercadorias é consequência desta escravidão. O pecado atinge de forma sistêmica o homem, bem como os relacionamentos. Segundo Erickson (1997, p. 256-257), o pecado torna o ser humano incapaz de ser empático, pelo fato de que a preocupação é individualista e de acordo com os desejos a serem consumidos. Quando se encontra segurança nas posses e conquistas, o pecado provoca a rejeição da autoridade, pois ela restringe a liberdade de fazer o que se quer, o que se deseja, aponta o teólogo. O pecado produz a incapacidade de amar, “pois uma vez que os outros se colocam em nosso caminho, representando competição e ameaça para nós, não conseguimos agir realmente para o bem estar pleno dos outros […]; na modernidade líquida “o que amamos é o estado, ou a esperança de sermos amados” (BAUMAN, 2004, p.102).

4. CONSIDERAÇÕES E REFLEXÕES FINAIS

A herança renascentista é a beleza antropocêntrica de Narciso e todo o seu conhecimento, exuberância intelectual. Mas a Modernidade Líquida é o estado de putrefação de Narciso – a herança cultural e ilusória de seus atos.

A definição de idolatria em Tozer é certeira: o vazio é do tamanho de Deus. Esse vazio é preenchido pelo ídolo Narciso. Esse ídolo é exigente! Quer sacrifício! Esse ídolo está presente na cultura do prazer, da beleza e no evangelho da autoajuda. Esse ídolo está nas entrelinhas de nossa hermenêutica “contextual”. Narciso inspira grandes histórias bíblicas para grandes apelos a aceitar o Jesus antropocêntrico. Narciso grita em nossos corações: “Onde está o seu Deus?” (Salmo 42.10). Os pecados deliciosos, a opressão, o sofrimento perguntam para nós: onde está o teu Deus? Deus é inalcançável! O nosso modo de vida, a nossa obstinação diária permite nos distanciarmos da santa e bendita presença de Deus! Mas isso nos tempos atuais não nos atinge! Sabe por que? Por que não temos falta! Temos tudo! Estamos distraídos com a nossa própria imagem.

REFERÊNCIAS

AZEVEDO, Marcos Antonio Farias. Pós-modernidade: um olhar sociocultural, antropológico e religioso. In: Revista Ciências da Religião: história e sociedade. São Paulo, v.9, n.1, p 116-146, 2011. Disponível em: <www.editorarevistas.mackenzie.br/index.php/cr/article/view/3298/2947>. Acesso em: 27/12/2016.

BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

______. Identidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

______. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

______. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998

DAÓLIO, Mary Alves. O percurso do descentramento do sujeito do inconsciente na teoria freudiana, o desamparo e a revisão ética que o acompanha. 2006. 116 f. Dissertação – Departamento de pós-graduação stricto sensu de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Curitiba, 2006.

ERICKSON, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática. – São Paulo: Vida Nova, 1997.

FRAGOSO, Tiago de Oliveira. Modernidade líquida e liberdade consumidora: o pensamento de Zygmunt Bauman. In: Revista Perspectiva Sociais. Pelotas, Ano 1, N. 1, p. 109-124, março/2011. Disponível em: <https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/percsoc/article/viewFile/2344/2197>. Acesso em: 07/01/2017

FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma introdução. In Obras completas psicológicas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1987ª. Vol.14.

HESÍODO. Teogonia: A Origem dos Deuses. São Paulo: Iluminuras, 1991.

LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

LYOTARD, Jean-François. O pós-moderno. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993.

McGRATH, Alister E., Teologia sistemática, histórica e filosófica: uma introdução a teologia cristã. São Paulo: Shedd Publicações, 2005.

PEREIRA, Duarte Pacheco. Esmeraldo de situ orbis. Lisboa: 1954.

PICO DELLA MIRANDOLA, Giovanni. Discurso sobre a dignidade do homem. Lisboa: Edições 70, 2001.

RAMACHANDRA, Vinoth. A falência dos deuses: a idolatria moderna e a missão cristã. São Paulo: ABU, 2000.

ROTTERDAM, Erasmo. Elogia da loucura. São Paulo: Lafonte, 2012.

TOZER, Ainden Wilson. Experimentando a presença de Deus: ensinamentos da carta aos Hebreus. Rio de Janeiro: Graça, 2015.

Crédito da Imagem e notas: CARAVAGGIO. “Narciso”. Óleo sobre tela, 110×92 cm. 1594-96. Galleria Nazional dell’Arte Antica, Roma.

[1] Vale lembrar que Caravaggio é um pinto do período denominado Barroco (séc. XVI ao XVII). Esse período é posterior ao Renascimento (séc XV ao XVI). Segundo

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