Ciência e fé cristã – uma resposta

Posted by Djesniel Krause in APOLOGÉTICA

CIENCIA E FE CRISTA - RESPOSTA

Por Djesniel Krause

No último dia 20 de Agosto, após a publicação do texto Ciência e fé cristã, que pode ser conferido no site do NAPEC[1], houve a publicação de um texto-resposta[2] para o qual segue abaixo algumas considerações. (grifo nosso). O autor do referido texto inicia seu discurso identificando-se como um ex-evangélico e alegando certa “vergonha pós-desconversão” que o levou a apagar textos anteriores sobre o mesmo tema.

Um pouco após, o autor acusa Krause a apresentar a “’ciência’ como sendo um conjunto de conclusões derivando diretamente de ‘pressupostos naturalistas’”, ora, uma leitura atenta do texto de Krause deixa claro que os pressupostos naturalistas dizem respeito à cosmovisão apresentada por Carl Sagan em sua série televisiva Cosmos, bem como em sua continuação apresentada pelo astrofísico estadunidense Neil deGrasse Tyson, e não à ciência propriamente dita.

Como a afirmação certeira de N.T. Wright, mencionado no texto do NAPEC, “o verdadeiro conflito não deveria ser entre fé e ciência, mas entre uma visão de mundo que separa as duas e uma que as une”[3].

Trata-se, portanto, de uma guerra de cosmovisões, com pessoas como Sagan ou Dawkins advogando uma visão de mundo naturalista, que elimina qualquer possibilidade de intervenção divina a priore, e uma visão de mundo teísta, que está aberta a possibilidade da crença na intervenção de Deus na ordem criada.

Isto não significa, obviamente, que um cientista cristão assumirá que Deus interveio diretamente na natureza a cada novo desafio que a ciência ainda não possui respostas.

Um claro exemplo pode ser a alegação cristã da ressurreição de Jesus.

Para o cientista que possui uma visão de mundo naturalista, tal como Dawkins, a hipótese da ressurreição de Jesus está de antemão descartada, não importa o quão melhor se saia tal hipótese frente a outras explicações naturalistas, milagres são simplesmente impossíveis.

Assim, a ressurreição é descartada como mitológica por causa de pressupostos filosóficos e não pela análise cuidadosa das evidências disponíveis, o mesmo pode ser dito sobre diversas outras situações, tais como a criação do Universo e da vida.

Enfatiza-se, entretanto, que não se está estimulando o uso da falácia do deus-das-lacunas, um deus invocado para explicar aquilo que a ciência ainda não explicou, como afirmado pelo autor do texto quando diz que “a religião precisa residir no desconhecido, ou alegar ter conhecimento em áreas ainda não descobertas através do conhecimento científico ou não contrariadas por este”, ora, como disse o químico de Oxford, Charles Coulson, “ou Deus está no todo na natureza, sem nenhuma lacuna, ou ele não está de maneira alguma ali”[4] ou ainda como o grande autor Abraham Kuyper escreve, “Não há um centímetro quadrado sequer em todo o domínio da existência humana acerca do qual Cristo, que é soberano sobre tudo, não exclame ‘Meu!’”[5].

Deus reina sobre todo o Universo, e não apenas onde a ciência ainda não tem respostas.

É claro que houve situações na história onde a interpretação bíblia foi revista diante de novas descobertas científicas, como o bem conhecido caso do heliocentrismo, que, devo mencionar, foi proposto por um cristão e defendido por outros cristãos, todos eles não vendo qualquer conflito entre a fé cristã e suas descobertas científicas.

Como observam Kennedy e Newcombe:

O que estava em jogo na revolução de Copérnico? Muitos secularistas da atualidade dirão que foi a cosmologia bíblica. Na realidade foi a cosmologia aristotélica que foi sacudida em suas bases por Copérnico. Unicamente por ter imposto à Bíblia o pensamento aristotélico, a igreja, equivocadamente, censurou Galileu em 1632.[6]

E ainda Francis Schaeffer comenta:

Quando a Igreja Romana atacou Galileu e Copérnico, não foi porque seus ensinos realmente contivessem algo contrário à Bíblia. As autoridades da igreja pensavam que sim, mas isso ocorreu porque elementos aristotélicos haviam se tornado parte da ortodoxia da igreja, e as noções de Galileu eram francamente contrários a eles.[7]

O autor prossegue seu texto afirmando que “Fé e ciência são duas formas opostas de chegar a conclusões sobre a realidade” e que por esta razão elas “chegam a conclusões diferentes sobre os mesmos assuntos”.

Conforme Alister McGrath, “A ciência e a teologia fazem perguntas distintas – no caso da ciência, a pergunta diz respeito a como as coisas acontecem: por meio de que processo? No caso da teologia, a pergunta é por que as coisas acontecem: com que propósito?”[8]

Ora, concorda-se com o fato de que a ciência, e em especial as ciências naturais trabalham apenas com o mundo natural e que portanto coisas tais como sentido, propósito e mesmo o sobrenatural estão aquém do método científico.

Concorda-se com C.S. Lewis que diz:

Não afirmo que a tese da criação da Natureza por Deus e a existência dele possam ser rigorosamente provadas, mas me parecem extremamente prováveis, tão prováveis que qualquer pessoa que aborde a questão com a mente aberta não defenderá com seriedade outra hipótese[9].

O problema se dá quando se assumi que toda verdade só é acessível a partir do método científico, uma tendência intelectual também chamada de cientificismo.

Ainda de acordo com McGrath, a ciência “conhece seus limites, e seus limites são determinados pela evidência. Mas essa evidência, às vezes, parece apontar para além de si mesma, para outro mundo logo além do horizonte, além da investigação científica”[10].

John Polkinghorne afirma que “A ciência moderna parece, quase de forma irresistível, apontar para além de si mesma”[11], e Cornelius Van Til afirma que “Os cientistas lidam com aquilo que tem a impressão da face de Deus”[12].

Fatos como o início do Universo, sua inteligibilidade, seu ajuste preciso e sua beleza, bem como nossa capacidade cognitiva de conhecer esta realidade são fatores que apontam para além deles próprios.

Os céus declaram a glória de Deus, já dizia o antigo salmo.

A visão de mundo cristã, que vê o Universo como a criação de um Deus pessoal, que dotou sua criação de ordem e de beleza foi crucial no surgimento e desenvolvimento da ciência moderna.

Aliás, a origem e desenvolvimento da ciência moderna bem como a importância da cosmovisão cristã para tal foram temas que infelizmente permaneceram completamente intocados no referido texto.

Como uma última observação, o autor menciona os conhecidos argumentos ontológico, teleológico e cosmológico, os quais, segundo ele, foram “já exaustivamente respondidos”, ora, o que há são algumas tentativas de refutação por parte de alguns cientistas como Hawking e Dawkins, que por sua vez, também são refutados por outros cientistas como McGrath, Lennox ou filósofos como Plantinga, ou seja, o debate permanece, provavelmente ainda por muitos anos.

NOTAS:

[1] KRAUSE, Djesniel. Núcleo Apologética de Pesquisa e Ensino Cristão. Ciência e fé cristã. 2017. Disponível em http://www.napec.org/apologetica/ciencia-e-fe-crista/. Acessado em 22/08/2017.

[2] HENRIQUE. Prazer, Henrique. Re: Ciência e fé cristã. 2017. Disponível em https://legadodehenrique.wordpress.com/2017/08/20/re-ciencia-e-fe-crista/. Acessado em 22/08/2017.

[3] WHRIGHT, N.T. Surpreendido pelas escrituras: questões atuais desafiadoras. Viçosa: Ultimato, 2015, p. 28.

[4] COULSON apud MCGRATH, Alister. Surpreendido pelo sentido: ciência, fé e o sentido das coisas. São Paulo: Hagnos, 2015, p. 84.

[5][5] KUYPER apud COLSON, Charles; FICKETT, Harold. A fé em tempos pós-modernos: em que creem dos cristãos. São Paulo: Editora Vida, 2009, p. 151.

[6] KENNEDY, D. James. NEWCOMBE, Jerry. E se Jesus não tivesse nascido? São Paulo: Editora Vida, 2003, p. 132.

[7] SCHAEFFER apud KENNEDY, NEWCOMBE, 2003, p. 132.

[8] MCGRATH, 2015, p.72.

[9] LEWIS, C.S. Milagres. São Paulo: Editora Vida, 2006, p. 57.

[10] MCGRATH, 2015, p. 66.

[11] POLKINGHORNE apud MCGRATH, 2015, p. 89.

[12] VAN TIL, Cornelius. Apologética cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 96.

REFERÊNCIAS

COLSON, Charles; FICKETT, Harold. A fé em tempos pós-modernos: em que creem dos cristãos. São Paulo: Editora Vida, 2009.

HENRIQUE. Prazer, Henrique. Re: Ciência e fé cristã. 2017. Disponível em https://legadodehenrique.wordpress.com/2017/08/20/re-ciencia-e-fe-crista/. Acessado em 22/08/2017.

KENNEDY, D. James. NEWCOMBE, Jerry. E se Jesus não tivesse nascido? São Paulo: Editora Vida, 2003.

KRAUSE, Djesniel. Núcleo Apologética de Pesquisa e Ensino Cristão. Ciência e fé cristã. 2017. Disponível em http://www.napec.org/apologetica/ciencia-e-fe-crista/. Acessado em 22/08/2017.

LEWIS, C.S. Milagres. São Paulo: Editora Vida, 2006.

MCGRATH, Alister. Surpreendido pelo sentido: ciência, fé e o sentido das coisas. São Paulo: Hagnos, 2015.

VAN TIL, Cornelius. Apologética cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.

WHRIGHT, N.T. Surpreendido pelas escrituras: questões atuais desafiadoras. Viçosa: Ultimato, 2015.

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